Saturday, January 08, 2005

Sou e não existo

O meu mundo é redondo.
Perfeitamente encaixado.
Isento de assimetria.
É roliço e com espinhos de adorno.
Cheira a cerejeira.
Sabe a mirtilos.

O meu mundo é calmo e atenuado.
Está cheio de tranquilidade.
Nele, ouvem-se flautas e harpas,
vêem-se as nuvens espreguiçarem-se vagarosamente.
O sol sorri ameno, como nos desenhos das crianças.
A erva é macia e ondulante,
toca-nos no rosto e adormece-nos.
As copas das árvores balouçam
num misto de bailado e suplico.
O tempo passa sem se fazer tarde.

No meu mundo, tudo é estático e carente de vida.
Aqui apenas existe o travo a mofo do que é plástico,
artificial.
Neste meu mundo, existe-se por se ser.
Não se existe!

Existo-me e não faço parte dele.
Existo, e crio-o para poder ser.
Sou e já não existo.


José Luis da Fonseca

Friday, January 07, 2005

Corsário dos mundos

Um dia, ainda era pequeno,
olhava pela minha janela
e enchia-me de felicidade
por pertencer a um todo
de vida que me rodeava.
Pertencia-me a cada partícula,
corria por sobre cada
cor de luz reflectida.

Abraçava-me a tudo,
e a tudo chamava meu.

Um novo quarteirão,
uma nova cidade.
Uma nova árvore,
uma nova terra.
Anexava todas estas conquistas
ao meu império de sentidos.

Além-mar, apenas o mistério.
Na água salgada, apenas
vestígios da existência
das tuas lágrimas.

Levado pela minha sede
imensa de eperiências,
construo uma caravela
da matéria de que
são feitos os sonhos.
Lanço-a no mar da incerteza,
e levo-a a perseguir uma miragem.

Faço-me navegar pelas
ondas do teu cabelo.
Agarro a espuma do teu corpo
e chamo-me pirata do teu ser.
Redescubro-te em cada nova abordagem.

Devoro a tua essência
e deixo-te vazia.
Trinco a tua alma
e alimento-me do teu tesouro.

Outro novo mundo espera-me,
e parto.

Anoitece no meu império.
Ficam as lembranças de
quando ainda sonhava conquistá-lo.


kurt

Saturday, January 01, 2005

O Povo

O povo cumprimenta com petardos
e guinadas de borracha queimada.
Não consigo evitar o sorriso contido.
Se eles soubessem...
Então saúdam o novo ano com tanta euforia?
E não sabem que é este o último?
Que este traz a vossa destruição?
Então porque te embebedas?
De que te ris, animal?
É por este ano ser um bruto pior que o anterior?
Ah, ris-te por seres um bruto maior que ele!
E não tens vergonha de te humilhares
espécie de cavalgadura feita besta humana?

Este povo é uma nódoa nojenta,
sarro gorduroso, impregnação de imperfeição.
Ri de boca cheia de bosta,
escarra pus de orgulho gutural,
mija nas vielas escuras,
seduz criancinhas orfãs,
aplaude maricas aristocratas,
chora com um punhado de turistas afogados,
ri da miséria do terceiro mundo,
vibra com uma bola e uma caneca de cerveja,
desliga a televisão e vai dormir.
Amanhã é novo dia, e a rotina começa cedo...

Ainda ris?
Então és incurável.
Sê feliz, então. Pobre diabo!

Ai Nandinho, como eras tolo!
Então querias fazer deste povo um Quinto Império?
Um império cultural, vejam bem!
Nem que a vaca tussa, que é
como quem diz, nem que a Júlia
Pinheiro comande esse império.

Quase me engasgo no meu riso.
Como é que esta cambada de idiotas
conseguia conquistar culturalmente
o que quer que fosse?
Que temos nós a mostrar ao mundo?
O nosso arroto insurdecedor?
Uma manifestação do mais profundamente
selvático que existe em nós!
Arrota, que estás de barriga cheia, cabrão.
Dantes querias revolucionar-te.
Agora que até as tíbias do
teu ex-patrão roeste, arrotas
com um cravo espetado em cada orelha.

Ri-te à vontade, animal imundo!
Rebola-te na pocilga que é o teu lar.

És um génio da ciência!
Conseguite provar que as iguanas estavam erradas.
Fizeste com que Darwin rebolasse na sua cova.
Mostraste que para trás é que é o caminho.
Conseguiste ser a principal atracção do circo europa.
Parabéns troglodita asqueroso.

Como te admiro, minha viscosa lesma fecal.
És a negação de tudo o que desejo para mim.
Obrigado por me servires de anti-paradigma.
Não batas já as palmas, antibiótico cefálico!
Ainda não acabei, rude, mentecapto, lusitano.
Sempre a mesma mania.
Bates palmas para quê?
Se queres aquecer as mãos, enfia-as no rectum, estúpido ignorante!
Imperador das bestas mais acéfalas do universo!

Segue o teu caminho, aberração dantesca.
Engole bem todas as asneiras escolásticas.
Não te esqueças disto!
Socratiza-te!
Tenho dito.

(agora podes bater palmas, alarve de inconsciências!)


João

Pandora

Da minha caixa de música,
consigo ouvir os passos
cuidadosos da bailarina.
Vêm murmurar aos ouvidos
que o teu bailado prossegue.

Como são traquinas os teus passos...

Aproximam-se desencaixados e frágeis,
fazem-se ouvir através do meu silêncio.
Convidam-me para ir brincar,
e a minha criança, que sou eu,
segue logo atrás deles.

Ficamos a pular no meio da minha sala,
enquanto a lareira crepita o compasso do tempo,
e o grande relógio aquece as horas.

Num glimpse de eternidade,
estarreço de medo e confusão!
O piscar de olhos é nítido.
Sais da tua caixinha de música
e diriges-te a mim.

Estendes a mão, enquanto sorris maliciosamente.
Elevas-me num bailado de veleidade.
Encaminhas-me na direcção da tua caixa.
Trancas-me no espelho das tuas sabrinas.

És, agora, pandora livre e auspiciosamente vil.
Eu sou eco abafado numa velha caixa de madeira.


José Luis da Fonseca

Curriculum Vitae

Sr. Diogo blá blá blá de tal
Poeta desta vida e da outra
Ignorante em formação fulcral
Imbecil congénito ou noutra

qualquer condição de avaliação
Com experiência em nada, ceguinho
Prestável só por negação do Dão
Idiota, excremento, asno, tolinho

A sua presumível ciência, o amor,
nunca sentiu, viveu ou cheirou
É uma absoluta ausência de calor

De um canto de um dos olhos caiu
uma lágrima sem destino. Ficou
claro o fim, de quem já desistiu.


Diogo

Nós

Sinto-me no desejo de te ter perto de mim!
A tua imagem?
Não me chega!
A tua voz?
Tão pouco...

Arrancaria cidades pela raíz,
para te ter mais perto.
Beberia quantos oceanos
fossem necessários.
Correria léguas infinitas,
engoliria as minhas planícies.

E depois, apenas o tacto
nervoso de mão contra mão.
Os olhos fechados, para que
o sonho não se materializasse.
O atrito dos corpos, o suór quente...

A saliva de mercúrio escaldante,
os dentes cerrados de quem morde a vida,
os punhos fechados de uma violência telúrica.

O sentido de tudo
aliado à razão do nada.
O sermos por nos termos.

A vingança divina, de quem inventou
o amor para gozo esporádico.

Abrir os olhos, para
simplesmente te poder olhar.

Ver-te sorrir e voltar a fechá-los...


Diogo

Menino

Saúdo-te, menino dos deuses!
Redentor dos fracos.
Misantropo dos humildes.
Admiro-te, meu pequeno,
no incurável cansaço
da perseguição do justo e correcto.
Ave, bússola do Bem.
Que a tua atitude seja pura,
e que o teu meio não seja questionável.
Sopra, na tua brisa fria
de almas com coração.
Não te acredito,
mas protejo-te.

Deixa-me aprender contigo
as manhas maléficas do Bem.
Deixa-me ser um dos teus cavaleiros.
Meu menino, entrego a minha
força nas tuas mãos,
e não peço nada em troca.
Ergue a minha mão
na direcção da perfeição,
e eu soprarei as velas no dia do teu aniversário.
Molda-me à tua imagem,
e eu apagarei a tua chama de fiéis.

Parabéns, meu menino, hoje é o teu dia;
Feliz Natal!


kurt

PhD

Apraz-me dizer que hoje
me senti deveras excitado.
Li avidamente, até atingir
a margem da obsessão depressiva,
poemas de doutores eruditos.
Atingi o clímax de menino
sem fralda que corre pelo mundo.

Vi as gramáticas exemplarmente
dispostas em caixinhas de papel.
Senti o perfume da poesia dos
inteligentes e incompreendidos.
Senti-me em casa, numa modéstia descuidada.
Respirei de alívio e tremi
ao reconhecer-me em cada
verso, cada página, cada vírgula.

Senti-me insignificante e inferior.
E sorri de alegria por depor
o meu fardo de mensageiro.
Ai, philosophiae doctor,
que bem que vós escreveis.
Que fascínio para a alma
que é poder ler-vos.

Como eu era insignificante.
Como vós sois supremos.
Que felicidade para este mundo.


kurt

Gothiko

Julgas-te um renegado,
pensas-te filho de satanás.
Pintas a cara como se
fosses um demónio gore.
Choras a tua miséria
como um menino de coro,
no conforto do teu quarto.
Vives na ilusão mais
ridícula que conheço.
Queres ser apenas o
que não te deixam ser.
Renegas-te para seres renegado.
És um inútil! Mais do que eu.
Faz-me um favor e acaba com a tua vida...

Mata-te segundo os padrões
mais horripilantes que conheças.
Sofre como um porco nos
últimos minutos da tua
mísera vida, para que
possas dizer que tiveste
significado neste mundo.
Dá-me esse espectáculo
de vida e morte, como
pagamento pelo conselho
mais acertado que alguma
vez amigo algum te deu.

Morre para meu gozo,
e serás completo.


kurt

Sinfonia de Vénus

Despeço-me de tudo o que é correcto
e entrego-me num frenesim poético.
Consolo-me no restante oculto que
é a satisfaçao de ter uma vida,
uma vida traçada numa prancha de BD
e alinhavada por entre a composição de um verso
Agito!
AAAHHHH!
não sei para onde me virar
estou cego de tanta beleza
já não sei que pensar, só consigo murmurar
oco, és oco, oco, oco.
e ali, tão perto, tão fácil
de alcançar.
Tudo
tudo o que alguma vez tinha conseguido imaginar.
tudo o que quis dizer
tudo o que me tinha passado pela cabeça
tudo o que me compunha
numa composiçao bonita e singela
e repleta de verdade que eu não tinha conseguido abraçar
na névoa que cobria o meu raciocinio.

Já não há mistério para mim.
Agora, não por mim,
sei. sei-te
Entregaste-me uma procuração
de vida e morte.
"olha, vivi-te. toma o meu resumo de ti."
autopsiaste-me e disseste, não és diferente.
és tão simples e tão igual quanto os outros.
e agora sou mais feliz,
mesmo sabendo que és indiferente,
e que te viraste para outro caso.

na minha mão fica apenas um pedaço de papel rasgado,
com a nota da minha prestação e o número do meu BI.
Nem nome tenho.
apenas quantificação
Mas tornaste-me real.
Deste-me existência na tua linha de montagem.

Não sei que te hei-de chamar.
Não te importas de ficar incógnita, pois não?


kurt