Sunday, March 27, 2005

Em mim, Mogadíscio.

O vento seco e torpe leva as lágrimas
que evaporam do canto de
uns olhos tristes e vidrados.
Perscrutam o futuro sem
encontrar esperança além
da poeira que desidrata
a pele e a alma de quem
teima em ficar de pé.

Nos lábios gretados, emaranham-se
as palavras de quem não protesta.
Das injustiças digeridas.
Da sede de verdade.

No corpo, as cicatrizes da incompreensão.

No pico do meio-dia, uma figura
faz sombra sobre si própria.
É tristeza por pura contemplação.
Um acenar discreto à palidez da vida.
Uma barriga cheia de pó.

Quando só lhe resta sorrir-me,
vira-me as costas e vagueia por rumo incerto.
É a minha tristeza. Sazonal, deambulante.
Em mim, Mogadíscio materializa-se,
numa Europa rica e luxuriante.
Mas cá dentro, ressoam apenas
as tempestades de areia e o murmúrio
de um mismar distante.


Diogo

Friday, March 18, 2005

Desconforto

Por donde se exaltam
os gritos e gemidos
dos que são mudos,
chegam-me notícias
de que afinal nos sonhos
se come a gelatina de que
é feita a nossa moral.

Trememos de incoerência.
Viajamos cegos, e porventura,
caso não tenham reparado,
morremos de medos idiotas.
Nos sonhos eles não nos ouvem.
Nos sonhos limito-me a ouvir-te.
Sorri outra vez, por entre a chávena
de chá que me ofereces estendendo
esse teu frágil braço.

Cada pormenor em ti é um preenchimento
absoluto de todas as lacunas que
existem no para além de ti.

Fico nessa embolia. Nos segundos
seculares do atrofiamento do
meu córtex inferior. Sorrio.
Que nem um tolo, enquanto
tombo para a frente e bato
na mesa, que, por sinal, me
vai rachar a testa em dois.

Deixa. Sinto-me mal, só isso.
Uso-te, como se de um qualquer
analgésico genérico te tratasses.
Rio-me e não te amo.


kurt