Friday, July 21, 2006

fronteira

Anoiteço, solene, na dúvida
se deva colocar-me em bicos de pés no limiar do abismo.
Enlouqueço, fervilhante, na certeza
de cair ao mínimo suspiro de vontade.
A fronteira é o lugar que eu procuro
e é a alma que me preenche.
Sonho todos os dias com ela.
A incerteza de estar antes ou depois.
A força de ter tudo para mudar.
O novo fato que acumula, como pó, sobre o velho.
Onde ontem, hoje e amanhã separam-se no ruído
de quem arrasta movéis caducos.

A fronteira é o sítio onde não sou bom nem mau.
Sou, apenas.



Diogo

Tuesday, July 18, 2006

hail to the plum

Sento-me à sombra desta árvore a trincar uma ameixa.
Dobro-me porque me dói a barriga.
Ah, como me dói a barriga!
Levanto-me.
E as pernas tremem.
E como me doem todos os músculos que se contraem para me manter erguido.
E eu queria ser oblíquo, para não ter que me contrair
nem para ter que me sustentar. E não consigo...
Nunca consigo.


José Luis da Fonseca

Sunday, July 16, 2006

Verniz

Sempre que olhas para mim e pensas
eu lembro-me que não existo.
Deixo-me levar na tua incerteza
por não saber onde quero ir.
Olhas para mim e pensas...

Sabes, hoje conheci um estranho
no autocarro e dei-lhe um beijo antes de sair.
Mas ele não pensou...

Sabes que só sou feliz quando
roubas a minha identidade
e preenches o oco que fica
com a tralha que trazes a mais.

Não sei ser eu!,
...nem quero ser, porra.
Eu nem sei pintar as unhas...

Só sei que gosto de ser o teu verniz!!!

Queres ouvir-me estalar?


Helena Sofia Bastos

Wednesday, July 12, 2006

Ténue

Dentro de ti, quando remexo nas vísceras
do tempo e trago as mãos impregnadas de memórias
sinto tombar a sobriedade da minha vida.
Um naufrágio de oportunidades é como
vejo aquilo que me trouxe até este ponto.
Um campo cheio de perfeito pois que arda
que eu já peguei fogo ao meu faz muito tempo!
E desgraçado daquele que dizimar
a colheita da sua própria vida!
Não.
Dizer não antes da pergunta?
É como deixar apodrecer aquilo que ainda não existe,
e castrar a fertilidade da surpresa.
E dizer sim? Será outra coisa com certeza...
E não dizer nada será também outra opção porventura.
E dar definições absurdas de coisas absurdas é ser-se urso!
URSO
Porque tudo o quero na vida
é não conseguir recordar-me dela.
Um dia fechar os olhos e não me recordar de ninguém.

Faz o parto do meu espírito!
e não terás nas mãos nenhum anticristo.
Apenas uma prova da tua invisibilidade e um ligeiro aroma a pus.


kurt