odeM
São ranhuras finas, por onde escorre uma luz pálida,
que alimentam este meu fim de tarde tardante e tardio.
Como um sopro de vento, elevo as pálpebras do meu sono
e deixo que repousem suavemente na frente de uma íris
cansada de tão pouco proveito, direito e bem feito.
A inutilidade ataca por falta de outras opções.
Sem querer, arrasto-me num torpor de emoções
mortas num tempo que não sabe para onde ir.
Se me perguntasses agora, tempo, que caminho
deves seguir, responder-te-ia com um tiro nos cornos.
Se me voltas a aborrecer com evolução, mando-te decapitar!
És raquético, quando comparado comigo.
Não tens face, nem personalidade. Não passas de uma estúpida seta...
Se me perdesse, como tu, não estaria perdido.
Sou maior que o tempo de qualquer lugar e
não tenho relógio que não páre a um pequeno gesto meu.
Para mim, as horas são a resposta da tua preguiça à tua
completa falta de objectivos. És uma merda que se propaga.
Reges um universo que nem sabes como criaste.
Sou-te superior sem ter que colocar o meu Eu acima
do teu tecto de astros de fluorescência kitch e ordinária.
Não preciso de ser Deus para te dizer que és um bimbo sem gosto nenhum.
Sendo apenas Homem de uma Ultra persona e inegável curto, mas activo,
intelecto,
posso dizer, sorrindo, que não tenho medo de ti.
A Humanidade existe em poucas dezenas de seres
humanos vivos, e, talvez, numa centena dos que
já se projectaram no esquecimento vão dos medíocres.
Quem caminha sorridente na rua sabe que a morte não é
mistério nenhum, que a ética é um desporto e que aceitar
o enorme vazio que nos alimenta é a única atitude de grandeza
a que teremos acesso durante o período que é a nossa vida.
Quando o vizinho é oco, tenho o impulso de o oprimir só para
ver até onde vai a falta de auto-estima e orgulho no seu eu.
Quando choras pelos teus filhos, deixas-me ainda mais triste
por te saber um fraco miserável e sem utilidade.
A democracia não presta a partir do momento em
que qualquer símio pode esboçar uma opinião.
No único fio de consciência que ainda me prende
a uma existência fugaz e cabisbaixa, digo que
o mundo não é perfeito porque se fez crer que
a democracia o seria. O homem fraco não presta
nem para coser sapatos, e eu não tenho medo disso.
José Luis da Fonseca

