Friday, September 24, 2004

Ser

Despenosamente correm, por sobre mim,
os avidamente conduzidos lábios,
que se extendem por campos imensos
de ternura impossível de compreender.

Oiço longe o talvez da incerteza,
o espírito de água límpida e pura.
Sussura sonho aliado a sedução.
Promete paz e um pouco de noz moscada.

Somos a lua que nos ilustra.
Prendemos a alma ao que nos apela.
Ligamo-nos àquilo com que nos identificamos.
Gostamos do que nos ama, e amamo-nos.
Gostamo-nos.
Não nos gostamos.
Gosto de um sabor a caril.
Não nos amamos, ninguém nos ama.
E não gostamos.
Um pouco de cravinho e já tenho as narinas dilatadas.
Este cheiro de um tudo belo.
Visão de perfeição invísivel.
Contemplação e um sorriso nos lábios.
Felicidade aparente de um curto momento.
Olhar para todos os lados,
filtrar todos os sentidos,
e bombear as sensação para o cérebro.

Drogar-me neste festim de sentimentos.
Absorver tudo e pedir por mais.
Penhorar a minha vida em prol de inúteis experiências.
Ser meu labroratório em mim.

Ser apenas:.


kurt

Monday, September 20, 2004

Argonautas do Luar

Argonautas do luar.
Garimpeiros incansáveis do crescente.
Mistério secular
sem tempo nem presente.
Instinto do cheirar
aqui e ali.
Sentido apurado,
de quem chora e ri.
Vejo-vos no céu estrelado
como piratas do espaço.
Sem tempo nem passado,
num instante fugaz e escasso.
Fico pensativo e atento
neste estranho evento.
Interrogo-me porquê,
do seu desaparecimento.
Queria ir com eles,
mas fico só a ver.
Num querer sem poder,
limito-me a ver,
depois sorrio,
e a seguir escrevo.
Vejo, sorrio, escrevo.
São a minha companhia.
Invísvel em sintonia,
inalcançado em parceria.
São o meu sonho e o meu desejo.
São o reflexo no qual eu vejo
a minha vontade de mudar.
Uma vontade de imaginar
um outro mundo perfeito,
onde eu posso navegar;
entrar torto, sair direito.
São eles meus companheiros,
arcanjos da minha viagem.
Sorrisos numa mensagem,
esperança no olhar.
São efémero a dissipar.
Pensamento perdido e deposto.
Mera fragância fresca no rosto.
Simples argonautas do luar.


Diogo

Sunday, September 19, 2004

Burgueses do por vezes. (Traidores dos talvezes.)

Ó nobre Templário!
Irmão do pobre Macário.
Olha o emigrante que quer passar,
com pressa de o ir gastar.
Les emigrants
sont des bon-vivants!
Bourgeois du parfois.
Coitados, que de tão cegos
se afundam como pregos,
no mar imenso do capitalismo.
Subordinados ao vínculo
do intrépido despotismo,
de quem sai chorando, por nada ter.
E volta sorrindo, satisfeito,
por até a honra ter conseguido perder.
Batam palmas, a este estranho animal.
Atracção de qualquer zoológico
de qualquer indigna capital.
Erro genético e biológico.
Malfafado
de uma despeitada pátria.
Dizimado
por uma saudade errática.
Saís de cá servo e irmão.
Vindes com ganas de patrão.
Já não és de cá, és de lá.
Já não és de lá, não és cá.
Já não sois nada nem de nada.
Não és um pobre tímido português.
Nem um bem-sucedido burguês.

És vazio intelectual,
merda ambulante num suplico.
És a todos nós igual,
só que um pouco mais rico.


João

Thursday, September 16, 2004

Abraça-me

Do meu rosto cansado, permito-me apenas virar os olhos um pouco mais para cima, tentando alcançar o que sei não existir. Quando tudo está perdido, age-se sem pensar na razão dos actos. Age-se e pronto. Tudo se torna tão simples, como sempre deveria ser. Detesto viver no tempo do talvez.
Do teu rosto esmorecido, permito-me apenas ver correr as lágrimas da injustiça. As coisas ganham outra prioridade. Já não é sim ou não. É sentir-me triste por te ver sofrer. É saber-te mais e melhor que tudo isso. É sentir-me impotente para te ajudar. É não saber que te dizer. Imaginando o sabor das tuas lágrimas, entrar numa intimidade não concedida. Raptar-te à força desse todo mesquinho incontornável. Poder dizer não tem que ser assim. É ter a humildade honesta de te estender a mão.

Deixa-me abraçar-te.


José Luis da Fonseca

Tuesday, September 14, 2004

?

Olá, estou aqui.
Foi tudo tão rápido...
Porquê?
O costume, porque não?
Porquê porque não?
Não me faças mais perguntas...
Porquê?
Porque já não és uma criança!
Não serei?
Não!
Porquê?
Porque sim.
Porque sim?
Porque me apetece.
Apetece-te?
Sim, apetece-me brincar ao romantismo desmedido.
Não sou o teu boneco para brincares comigo.
Dizes bem, não és meu, apenas um boneco inútil.
Brinca comigo...
Agora não me apetece.
Porquê?


José Luis da Fonseca

Monday, September 13, 2004

Mulher

Deuses irados
da maldade e do céptico.
Paus mandados
da opressão e do cinismo.
Puta de estrada
na cruz sufocada.
Ladrões, burlões
que cortam os colhões.
Gente malvada,
por esse mundo, espalhada.
Vinde a mim nesta hora.

Vinde a mim desde já,
Pois sou vosso marajá.
Mostrem-me as vossas unhas,
e vejam o contraste nas brumas.
Ela na luz, vós nas mais podres urnas.
De ela quero a mais pura simbiose.
De vós quero a poética glucose.
Espremer tudo e depois
arrancar mais, se possível.
Dar-mos as mão, os dois,
num acto de amor verosímil.

Sorrir para ti, sem ceder.
Amar-te a ti, sem perder.
Viver no teu mundo
e sonhar-te, num profundo
estado de psicose neurótica.
Ver-te sempre, hipnótica,
misteriosa, proibida,
de presença descabida.
Sonhar-te! Sonhar-te sempre! Sonhar-te muito!
A ti!
Respirar-te! Murmurar-te num sussurro furtuito!
De ti!
Ser-te tudo agora!
Nada daqui a pouco!
Tudo outra vez...
Viver nesta distância promíscua.

Princesa do meu sonho.
Rainha da minha existência.
Imperatriz da minha vontade.
Milady angélica,
Divindade feita mulher!
Perfeiçao do universo.

Tu



...estou perdido... encontra-me.



kurt & Diogo

Canção da Calheta

à minha amiga, reclusa de uma alma que não cabe numa ilha

Na longínqua Atlântida
vive uma bela princesa.
De formosura cândida
e genialidade bem acesa.
Triste e só, na Calheta,
é prisioneira do seu espírito
Limitada ao seu planeta
e ao eco do seu grito.

Não chores mais, linda princesa,
Pois teu pranto é quase findo.
Alivia a dor e a tristeza
Porque de S.Jorge sairás rindo.

Não temas mais, bela Juliana.
Tua forte vontade há-de-te levar.
Onde a imaginação não ousa chegar.
E onde a loucura é quem manda.


Diogo

Friday, September 10, 2004

Sulidão

Deserto do Sahara.
Sul, numa imensidão de estepe.
Synergie au Bakara.
Grande ilusão iminente
do minguante Crescente.
Principezinho do teu planeta.
Rei do nosso mundo.
Inóspito senhor da marreta.
Apaziguador de fundo.
Detentor dos nossos destinos.
Pai dos nossos meninos.
Impotente filtro dos finos.
Ladrão de pobres campesinos.
Espectador atento
do que morre ao relento.

Omnipotente entidade suprema.
Razão divina e extrema.
Sul, entidade, unidade filosofal.
Sul, meio-dia meridional.


Diogo

Thursday, September 09, 2004

Estado Novo I

Já me tinha lembrado de explorar algumas crónicas sobre o Estado Novo. Decidi começar por um dos ícones fortes quando, à pouco, deleitava a vista sobre uma obra clássica, auto-intitulada de "qualidade", de literatura infantil. Queria dedicar estes pensamentos à velha guarda dos 3 F's. Ora, essa obra dá pelo nome de "as lições do tonecas", e, ao que parece, foi obrada por aquele ilustre salteador da literatura portuguesa, José de Oliveira Cosme. Julga-se que esse não era o verdadeiro sobrenome do senhor, mas forçado pelos vexames constantes, lá se deixou levar pela moda de alterar e adaptar o nome que o nosso santo paizinho nos deixou. A existência de tal fulano apelidado de escritor já era suficientemente má, mas basta consultar a contracapa para se ficar ainda mais assustado. Inserido numa tal de "Colecção Pequenina", nome esse que assenta que nem uma luva, onde podemos encontrar relíquias tais como, e passo a enumerar: "As anedotas do Siô Pereira", "Os contos da tia Néné", "Aventuras do Anão-Gigante", "O Pretinho de Angola", e por aí fora. Também, por 350 "mel-réis" não se pode exigir muito. De salientar ainda que, o papel não favorece muito a saúde rectal, mas pode ser que tenham sorte a arear as pratas da casa.
Mas tudo isso passaria incólume, não fosse a genial dedicatória dos editores. Esses paneleiros da LIVROLÃNDIA, LDA. têm a ousadia de justificar esta abominável reedição, dizendo que "Nesta altura em que a verdadeira literatura infantil (recreativa-instrutiva) tão falha está de valores...". E não julguem que estamos em plena década de 40 ou 50, essa época marcada por grandes avanços culturais portugueses. Não! Esta é uma edição de 1988. Eu pergunto-me, Mas de que puta falha de valores estão eles a falar??? Eu, na minha infância, tive "A Floresta" e a "Fada Oriana", e não sinto que o Tonecas possa vir preencher alguma lacuna. É isto uma ousada tentativa de ombrear o Gosma com a puríssima Sophia? Vão, mas é, deitá-la! A minha querida Sophia, a minha primeira amada, sombreada por esse Bosta, só nas vossas mentes podres, senhores editores.

Anjo na terra, querubim nos céus, não te preocupes. Eu serei o guardião da tua obra, o farol das tuas ilhas!

kurt

Wednesday, September 08, 2004

Peço-te

Sigo os passos do meu passado. Persigo o que foi, ou o que talvez ainda seja. Mágoa, tristeza, solidão... Nem sei! Vazio!...
Não era lá que estavas. Afinal quem és? Quem sou? Que quero? Não quero voltar atrás! Vergonha, sabes. Muita vergonha impede-me de levantar a cabeça e contemplar. Olho apenas as "peugadas" do que fui. Não te encontrar lá chega-me para regressar.
No entanto, não preciso de olhar para ver o que não quero. Custa-me! Sinceramente. Sabias que eles cospem no cravo de Maio que viu nascer Abril? Foi nesta terra que Abril abriu as portas e agora só o povo as cerra! Cheio de esperanças mortas, corações peçonhentos, futilidades na cabeça. Este povo, que Abril pariu, aborta a própria existência. Esquece o internacionalismo socialista. Transformou-se num vírus materialista. Este povo está morto como comunidade. Fatalmente remetido para uma regressão evolutiva. Isto não é um povo. Isto é uma nódoa histórica!
Olha, nem sei... Não sei se ria, se chore. Se chore pelos camaradas silenciados à força! Cancros à luz da nova ordem que se ergueu. Alvos a abater sem piedade. Se ria de uma ironia sem igual. Apareceres no momento em que a minha biografia só faz sentido num epígrafo... Sou de outros tempos. Sou da esperança numa humanidade humana. Por favor, não me prendas! Não me faças isso. Peço-te....

kurt

Tuesday, September 07, 2004

EU

Nas horas mortas da minha insignificância,
No cerne da minha imbecilidade interior,
Nas relações mediocramente establecidas,
Nas lágrimas que correram de forma inconsequente,
Pulsa uma vida insensata, radiante de amargura.

Insensatez de actos irreflectidos e incoerentes.
Essência, essencial primórdio que me conduz.
Primordial instinto de irracionalidade.
Instintivamente irracional elevado a humano.
Projecção de tudo isto numa mente frágil.

Uma tremenda vontade de confissão,
Uma ainda maior clausura de solidão.
Queria começar por me apresentar,
Mas não sabia que nome dar a isto.
Aglomerado biológico de porcaria genética,
livre escravo da minha vontade própria.

Diogo

agur

A tríade é um espaço clandestino de escrita criminosa, fundada a pensar na necessidade expressiva de três amigos. O Diogo, o Zé e o kurt encontram aqui mais uma plataforma para comunicarem entre si. A eles junta-se a visão clara de João, numa participação póstuma.
Qualquer semelhança de nome com uma casa de ópio, não é pura coincidência. Aqui a escrita é livre, mas condicionada a estados psiconáuticos. Declaremos então a casa aberta, e que perdure assim por mais algum tempo. Pelo menos, o suficiente para justificar esta inauguração. Em nome de todos nós, um muito benvindo, tremido de um nervoso, feche a porta sff.

Diogo