Thursday, February 10, 2005

Creolina

De longe do caixão negro,
sobe um cheiro imundo,
imenso, nauseabundo.
Eu sussurro ao defunto
que estou imerso em creolina
e por isso é que o posso beijar.

Ele agradece, mas pergunta-se
porque não se lembrou ele
de fazer o mesmo. Só tomava
banho de sabão porque não
passava de um chimpanzé.

Do outro lado, fica uma
pastelaria fina, onde
se desespera por uma
t-shirt e um cigarro.
Macaco é bicho estranho.

Não consigo gritar ao gajo,
porque a creolina não deixa,
e peço ao barbas que o faça.
Enquanto o olho na forma
de garrafa de aguardente,
ele berra às pedras que a
culpa da nossa desgraça
é delas e do zarolho.
Esse zarolho, puta que o pariu!

O bronze ri-se e, vou eu,
e mijo-lhe em cima.
E ele diz-me que, como
é creolina ele não se importa.
O bronze é um gajo às direitas.
Fico a gostar dele, e sento-me
ao seu lado. Ele ri. Eu não.

A procissão segue. E os tolinhos
olham e pensam que são eles
que vão na grande caixa.
Se não chegarmos depressa ao
inferno, o chefe vai ficar zangado
connosco. Por isso deitamo-nos
no chão e vamos a rastejar na via
cuspida e estrelada dos cacos de
vidro que nos rasgam o peito,
e me faz escorrer a creolina
pela praça onde eles enforcam
os outros piores que nós.
Tenho medo de me infectar.
E não o escondo. Tenho medo.

Quero-me esconder no caixote
de papelão e meter o morto de
novo na rua. Eles têm os tambores
em cima de mim e não consigo.
Então, largo a correr para o
repuxo de vinagre e mergulho.
Os pombos, raça putana de animal,
lançam-se no meu encalço,
e comem-me os olhos da cara.
O sangue escorre de duas
cavidades faciais e tinje o
liquído envolvente.
Um pobre e honesto varredor
pensa que, por maldade, lhe
fodo o fontanário e crava-me
o seu ancinho no meu coração
já de si fraco por natureza.

Fico ali.

Eles passam e não ligam.
Uns ainda pensaram, O
morto, morto está, e mais
podre não pode ficar. Não
precisamos do gajo da
creolina. Ele que se foda.

Só não chorei, porque não tinha olhos.


kurt

Sunday, February 06, 2005

Memorandum de 'Everland'

As crianças são mentes libidinosas enclausuradas num corpinho de fada.
Eu sou de uma timidez infantil com máscara de patriarca responsável.
Assim, no meu caso, o amor surge de forma natural.


José Luis da Fonseca

Tuesday, February 01, 2005

Psicanalista

Um nervoso olhar de lado.
Parede alva sem mistério.
Zero litros de opinião.
Não saber.
Não querer saber.

Fácil? Sim, fácil.
Como um numpad de desejos.
+/-
Ir e não ir. Não ficar.
Concentrar-me numa
qualquer ridícula distracção.

\123\123\123\123\123\123\123\123

Não
0 (zero )
mEDO

Ouve essa nova bossa que te adorna.
Melancolia-te num saber de não saber
mais que o céu é claro, o sol radiante,
os cheiros frutados e o destino incerto,
mas certamente feliz.
Sê como os gatos. Para quê correr atrás
dos ratos. Não te chega a comida de lata?

NÃO!

NON!

Como queres formar família
se nem um modelo adequado tiveste?

A minha família sou eu,
e não fui eu que a formei.
Sou-a, não a existo.

(AHHH, a mesma merda outra vez não!)
Rapaz, assim não há futuro para ti.

Não há futuro vosso onde eu caiba.

Não tens futuro.

Isso já eu sabia.

São 70 euros, e até para a semana.


Diogo