um amigo
Há um veneno que escorre
lentamente
viscoso
aderente
pelas telhas da tua consciência.
Vejo-te sorrir
numa dor
num desespero
num arrepio calado de culpa
Sei que te devo apaziguar
mas tenho nojo...
Tenho nojo de conhecer a tua dor,
e dói... dói muito virar-te a cara
e negar-te o conforto a que a amizade obriga.
e a tua visão distorcida, ah a tua visão distorcida
o medo que me proporciona
a imperfeição do mundo nos teus olhos
a falta de confiança, de honestidade,
a incongruência dos actos
como tudo isso me apavora
vais-te tornando a antítese
de tudo em que acredito
e um olhar desviado
das minhas crenças mais basilares...
revejo-te agora uma metadona
da minha mais viciante ética
e estremeço à mais remota hipótese
de me rever no teu olhar.
se soubesses como tenho medo
de não ser diferente daquilo que me mostras!..
sei que é grande o peso na tua consciência
mas não é maior que o tamanho da minha dúvida
e nestes pensamentos agonio lentamente
enquanto a tua peçonha
vai já respingando pelas goteiras.
José Luis da Fonseca

