Sou e não existo
O meu mundo é redondo.
Perfeitamente encaixado.
Isento de assimetria.
É roliço e com espinhos de adorno.
Cheira a cerejeira.
Sabe a mirtilos.
O meu mundo é calmo e atenuado.
Está cheio de tranquilidade.
Nele, ouvem-se flautas e harpas,
vêem-se as nuvens espreguiçarem-se vagarosamente.
O sol sorri ameno, como nos desenhos das crianças.
A erva é macia e ondulante,
toca-nos no rosto e adormece-nos.
As copas das árvores balouçam
num misto de bailado e suplico.
O tempo passa sem se fazer tarde.
No meu mundo, tudo é estático e carente de vida.
Aqui apenas existe o travo a mofo do que é plástico,
artificial.
Neste meu mundo, existe-se por se ser.
Não se existe!
Existo-me e não faço parte dele.
Existo, e crio-o para poder ser.
Sou e já não existo.
José Luis da Fonseca


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