Sunday, October 31, 2004

ao "Diarios de motocicleta"

Por ti, num deleite de entrega
que absorve o frio patagónico.

Sigo as passadas desta moto
velha e barulhenta, que voa.

Incas de outros tempos.
Gente que sofre tormentos.

Sou médico e não curo.
Prossigo e guardo para mim.

Ataques de outras asmas.
Sorriso de chilenos camaradas.

Subversão exaltada na
gente que sofre e berra.

Viagem longa e infinita.
Homem que cresce e se dedica.

Herói de um pequeno grande povo.
Vítima humilde da estupidez mesquinha.


João

Sunday, October 24, 2004

Fado do despeito

Caminha na pedra da idade
manchada de mágoa e dor.
Quem não imagina saudade,
não sabe nem sentiu pavor.

A guitarra geme de agonia,
com pena de quem dedilha
o caos de alma, que fervilha,
oscilando entre raiva e ironia

Sentir não é momento que dura.
Não é desejo nem capricho fraterno.
É ferida, que não sara ou cura.
É maldição de tormento eterno.

Podes dizer que sou corvo
ou gaivota, do frio do cais.
Que sou canto e estorvo,
sou Lisboa, e muito mais.

Mas eu te confesso que não
sou mais que pura ilusão.
Sou espuma e nevoeiro do Tejo.
Sou a lembrança do que não vejo.

Sentir não é momento que dura.
Não é desejo nem capricho fraterno.
É ferida, que não sara ou cura.
É maldição de tormento eterno.

Chego até sentir a forma banal
de melodia feita a preceito
Sinto-me neste fado, tão igual,
um transtorno de despeito!

Afinal, que mais há num rio
e numa cidade que nele respira?
Como pode um murmúrio frio
traduzir-se neste calor que delira?

Sentir não é momento que dura.
Não é desejo nem capricho fraterno.
É ferida, que não sara ou cura.
É maldição de tormento eterno.


Diogo

Thursday, October 21, 2004

Nuvens de chumbo

Escondido no solilóquio do fluxo,
perscruto ingenuamente
a condição tantas vezes verificada.
Saio e entro, e depois sigo num aroma
de café e esperança, num vislumbre
desfocado do nítido sujo e ortogonal.

Cadeiras de madeira, compassadas
em sintonia maestra de um teor
algo alcalino, acidamente redutor.
Positivamente deixada ao abandono
do esquecimento mútuo de quem
passa e não escuta o murmúrio
das coisas pequeninas e frágeis.

É este bailado de ritmo e cor,
de imobilidade corporal
e explosão sentimental.
É a mecânica da inércia,
o fotograma eterno.

Bola de cotão arrastada
sem existência aparente,
inerte secundário e virtual,
metido numa garrafa de rum.
Álcool depurado em acetona
ruim e corrupta, e catalisadora
de toda a maldade inimaginavelmente
concebida sem mácula nem pecado.

Virgem dos nossos tempos.
Mala de outrora.
Luz embaciada.
Ordem esquecida.

Afinal, de que penso?
Interrogo-me?

Afirmo-me, sem pestanejar,
como um simples pintor.
Olho e pincelo,
e a isto se resume a minha arte.
Comum tradutor visual-lexical.
Simples e reles cronista de imagens.


José Luis da Fonseca

Saturday, October 16, 2004

n

Sobre cúpulas de infinito
gracejo de tudo o que quero.
Rio-me até rebentar os tímpanos.
E quando me canso adormeço.
Quando acordo, volto a rir.
Depois olho para o lado,
e sorrio da infelicidade dos outros.
Imagino-te comigo e fico radiante.
Vejo-me destruindo o teu todo perfeito.
Os meus olhos fervilham de êxtase
na luz da minha decadência.

Bocejo, naquele sentido lato
de não ter nada que fazer
para além de admitir que existo.

Despir-me de todo e qualquer tema,
impedindo a comum rotulagem
de quem pertence e não pertence.
Satisfaz e não satisfaz a puta
da sociedade mesquinha e podre.

Mas eu não. Eu tou cá em cima.
E só me sentem quando quero cagar
e não me apetece ir ao mar.
Fodei-vos a todos que não tenho
tempo para vós, abutres da vida.
Deixem-me continuar a prender
às pequenas coisas da minha vida.

Olhar-me ao espelho não é
meu hábito usual, mas hoje
decidi que me ia arranjar.
Foi por isso que decidi
ir cozinhar o meu jantar.
Abro a tampa do meu tacho,
e mergulho no mundo do meu
cozinhado algo insonso.

E faço tudo isto e muito mais.
E sou tão especial e importante
que praticamente ninguém me conhece.

E sorrio àqueles que não o sabem.

E vivo pacificamente comigo.
Aos domingos o João vem cá
jantar na nossa companhia.
O zé apresenta-se respeitoso,
e o kurt ouve avidamente as
fantásticas histórias deste
bravo e eterno camarada.
Eu ouço e sorrio, enquanto
lavo a loiça e arrumo a
cozinha, antes de irmos
para sala. Tomo café no
silêncio da conversa acesa
dos meus inseparáveis
companheiros de vida.
Companheiros de casca e orgulho.

Venho na noite para fugir do escuro
que encobre o dia dos malditos,
os que se escondem na penumbra
do sol da ignorância dos pobres de alma.

Nado nos mares revoltados de
satisfação gozosa e masoquista.

Aprendo no meu ínfimo piscar de olhos.

Sou tudo e nada e vazio preenchido,
sou abrigo dos meus amigos de infânica.
Sou o que me quero como paradigma
da existência singular de um indivíduo.

Arrasto-me pelos cantos sujos do mundo,
e digo que existo e sou!

Não me importo e estou consciente.
Não me importo de estar consciente,
e chamo-me apenas pessoa comum.

Somos isso.
Somos n.
éne...


Diogo

Friday, October 15, 2004

Teorema da génese humana

Sem que saibas porquê
és forçado a avançar.
Impelido a alcançar
um qualquer ponto G.

No sexo esconde-se a arma
desta espécie que se odeia.
Apunhalando o que a rodeia,
entrega-se num amor que alarma.

Impulso vital e genético.
Experimentar outra dimensão.
Nervoso miúdo e ascético.

Conquistar sem perdão,
na entrega do intrépido.
Amar no sangue; no coração, não.


kurt

Tuesday, October 12, 2004

Órfão de Caeiro

Agora que foste,
não tenho mais companhia!
Estava sozinho e triste,
e chorava pela tua ausência,
quando eles entraram em casa.
De preto, todos escuros,
maus e com cheiro a naftalina.
De rosto cortante e sombrio.

Disseram que não podia estar
mais sozinho nesta casa.
Que me haviam de levar de novo.
Que não podia continuar a sonhar.
Que não podia fazer sonhar.
Disseram que me vinham buscar,
para me levar de novo para meu pai!

Despiram-me de toda a integridade.
Coroaram-me rei dos malditos.
Condenaram-me, menino,
um malfeitor dos homens.
Abro, de novo, os braços ao mundo,
e recebo em troca as pedras
da incompreensão e da ignorância.
Morre por nós, dizem eles.
Que espécie de VISA
de pecados sou eu?
Crédito ilimitado
de toda a maldade?
Cobrador assíduo de meu pai?

Lembro-me de ti,
e deixo cair uma gota.
Porque não posso
falar, passear e adormecer contigo?
Que pai este, que usa
seu filho nas suas guerras.
Renuncio ao seu nome,
e a trindade desfaz-se.
A pomba estúpida
fica ainda mais estúpida.
Esse velho fica sem poder
para absolver os vis servos.
E eu parto...

Sou criança apenas.
Procuro o teu nome
nas flores, pedras e rios.
Caminho por entre memória.
Deixo-me sonhar
e materializo-me.
Sou vontade pura,
criança eterna e imensa!


José Luis da Fonseca

Tuesday, October 05, 2004

Vive sendo vida

Na absolvição do meu desejo
procuro as tuas mãos sem abrigo.
Despe-te desse fardo sem ensejo
e segue o teu percurso antigo.
Também me sinto culpado por ti.
Não soube aliviar a tua dor, meu rapaz.
Fico triste porque não te respondi.
Abraço-me e sinto-te em paz.
Incorreção sem perdão,
ressurreição inatingível.
Acto de coragem incrível!
Despeito, mágoa, não!

Eles te julgaram e disseram
que não tinhas existência.
Eu te digo que erraram
em toda a sua magnificência.
Chora feliz nesse teu alívio.
Existes e estás connosco.
Sorri desse teu semblante lívido.
Não sejas informal ou racional,
sê kurt nesse teu ar tosco.


José Luis da Fonseca

terapia de ser

Amo-te a ti?
Ou a ti?
A vós?
Mas não sou já racional, puro e correcto?
Voltei ao ópio?

Não voltei!...

Voltei?

Mas afinal amo-te?
E ao ópio?
Amo-o?
Sinto-o?
Duvido...

Estou puro, simplesmente humano!

E ser humano não será ser do ópio?

Não!
Não?
Não...

Eu amo-te...
Sou teu!
Não sou um intoxicado.

Sou humano...
Logo, podremente intoxicado.
E, no entanto, amo-te.
Sou um tóxico romântico!
Ou um romântico tóxico?

És tu uma depurada opioácea?...
Isso explicava muita coisa.


kurt

não sou mais feliz

Porquê esta existência pueril?
De que forma degenera a consciência?
Como nasce o sentido de percepção?
Porque luto contra o certo ou errado?
Que lógica binomial parece fazer sentido?
Será correcto vencer a racionalidade?

Não quero mais experiências!
Recuso-me a procurar mais para além do quotidiano!
Quero ser um comum racional, e não uma aberração social!
Abdico da sobre-consciência e preparo o meu lar!
Castro a minha iniciativa e entrego-me!
Derroto-me por revolta contra o contra!

Quero ficar contigo o resto do tempo...
Desinteresso-me de todo o extra...
Desalieno-me da desalienação...
Sou feliz por mais alguns instantes...
Limito-me a viver como um miserável serzinho...
Fecho os olhos e esqueço descomplexadamente a vergonha...

Já não sou o pouco mais.
Já não vivo além do tudo.
Já não vejo por detrás dos ombros deles.
Já não sonho com a outra perspectiva.
Já não sou um future bringer.
Sou tão mais feliz.


kurt