Saturday, November 20, 2004

Folhas

Sinto-me desprender ao sabor
do teu sopro, amigo meridional.
Na preguiça de um aconchego,
peço-te só mais um pouco de calor.
Espreguiço-me num olá cordial,
cerro as pálpebras cansadas,
e murmuro, Ele já veio...

Amareleço a minha seiva,
e deixo-me guiar pela letargia do tempo.

Desprendo-me numa rotina.
Hiberno no frio outonal.
Olho-me tão só e gélido.
Deixo-me cair suavemente
no meu leito, e aguardo.
Enrolo-me devagar no meu casulo.

É tempo de nostalgia e ruas iluminadas.
É tempo de recordar e esperar.

Bocejo...


José Luis da Fonseca

Tuesday, November 16, 2004

(negro)

(negro)
(negro)(negro)(negro)

África dessa tormenta
inaudita e despida de todo o sentido.
Como poder virar em torno
de um particular desgosto.

Querer ouvir e saber. Badalar!
No trovejo da revolta de quem se oprime
por não escutar!

Torcer os pulsos como uma última manifestação vital.
Morrer!
E acodar num retroprocesso de composição desassemblada.
Morrer, sem viver na morte!
Renascer.
E olhar-te...

AH, olhar-te!
E o teu cheiro, e a tua pela e as tuas mãos.
E ser-te. Preencher-te. Sucumbir-me em ti.
A apagar-me num sorriso de vida.
E seres a minha vida. Toda ela.

Paisagem, peut-être um pouco mais de verde.
Panorama é reflexo!
Panorama é ilusão!

Vivemos numa bolha reflectora!

Isso não é interacção, o que vês.
É projecção, é determinismo.
Isso não é realidade. É mentira!

Aceito.

Ilusão seja.

Interminével esta sequência,
que se propaga como se escoasse pelo tempo.

Preciso de ti. És a minha anti-entrópica variável.
Aqui termino. És meu início e fim.
No meio existe apenas pó embrutecido do esquecimento.

Que pena. És negro | orgen sÉ
É este o meu reflexo.

C'est domage. Tão negro que ele é...

(negro)(negro)


Diogo