Sunday, January 10, 2010

Alfa e Omega

Cheguei a um ponto de ruptura.

E preciso desesperadamente de me confessar.

Sou um homem de princípios.

De imensos princípios

E sem me aperceber

deixei que os sentimentos

se convertessem em burocracia.

Hoje sinto-me acordar

de um longo pesadelo,

e preciso verdadeiramente de chorar

Desconsoladamente


Porque as referências literárias,

a arte e o engenho das palavras,

as figuras de estilo,

as filosofias e as teorias,

os sentimentos complexos

explicados sobre papel milimétrico,

a vaidade irritante,

o “melhor que tu” escrito na testa,

toda essa torrente de iluminismo

universal reservada à restrita elite

dos universalmente iluminados;

Como?, e eu repito,

Como explicar tudo isso

a uma criança que chora com fome?

Ou a uma mãe que perdeu um filho?

Como explicamos isso a nós próprios

quando um amigo agonia numa morte

lenta à distância de um abraço?


Que podem dizer essas teorias sobre

a mais básica e crua manifestação

da singularidade humana: a dor.

Mas de que vale falar de evoluções

enquanto para tantos, mais que muitos,

demasiados, mesmo quase todos,

a única realidade conhecida é o sofrimento constante?

Para quê uma galeria de arte abstracta

quando graficamente o nosso mundo é monocromático?

Apenas de sangue se pintam as nossas telas,

e esse é um facto incontornável.

Que sentido fará então falar do multidimensionamento

do espírito humano?

Que sentido fará palrear ideias loucas sobre

a elevação do indivíduo a entidade central e suprema do universo

quando a poucos metros de nós há sempre alguém a suplicar

por um fim, e por vezes pior ainda, por um nunca haver princípio.

To hell with all that bullshit!..


Sei que não me estou a fazer entender,

não completamente pelo menos,

mas também não é neste momento meu intento

escrever mais uns versos bonitos.

Confesso-vos que choro desconsolademente

E sinto vergonha pelo meu egoísmo

Egoísmo esse sobre o qual nunca

tive verdadeira legitimidade.


Comecei com os meus princípios,

e com eles devo acabar.

Refugiei-me na depuração das noções

de amor e de felicidade.

E usei isso como desculpa.

Protegi-me atrás de uma barreira

invisível à qual chamei ética.

Mas a única coisa que realmente

eu procurava alcançar era o distanciamento

absoluto da condição humana.

Ao fim e ao cabo apenas quis fugir

daquilo de que verdadeiramente somos feitos:

medos, dor e sofrimento.

A minha vida foi toda ela um acto de cobardia.


E se à minha cega e fanática religião

chamei amor,

à cruz que agora se ergue à minha frente

eu chamarei redenção.

Por mais que me doa

sinto que devo isso ao mundo.

E basta que do meu sacrifício

se cale um choro de criança

para que, no meu sofrimento,

eu seja plenamente feliz.



kurt