Pandora
Da minha caixa de música,
consigo ouvir os passos
cuidadosos da bailarina.
Vêm murmurar aos ouvidos
que o teu bailado prossegue.
Como são traquinas os teus passos...
Aproximam-se desencaixados e frágeis,
fazem-se ouvir através do meu silêncio.
Convidam-me para ir brincar,
e a minha criança, que sou eu,
segue logo atrás deles.
Ficamos a pular no meio da minha sala,
enquanto a lareira crepita o compasso do tempo,
e o grande relógio aquece as horas.
Num glimpse de eternidade,
estarreço de medo e confusão!
O piscar de olhos é nítido.
Sais da tua caixinha de música
e diriges-te a mim.
Estendes a mão, enquanto sorris maliciosamente.
Elevas-me num bailado de veleidade.
Encaminhas-me na direcção da tua caixa.
Trancas-me no espelho das tuas sabrinas.
És, agora, pandora livre e auspiciosamente vil.
Eu sou eco abafado numa velha caixa de madeira.
José Luis da Fonseca


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