Thursday, November 26, 2009

devagar

Eu sei lá... Por vezes fico sem saber o que dizer

E mesmo assim aperta a vontade de...


A melancolia, escorrendo, vai caindo

sobre os ombros, esquecendo

o sol de inverno, sentindo

a tristeza crescendo.


A solidão desleixada é o ponto final

de mais um capítulo mal vivido

O prólogo inevitável e formal

de um sonho adormecido.


Por vezes fico sem saber o que fazer

E mesmo assim aperta a vontade de enlouquecer

Outras vezes fico sem saber o que pensar

E ainda assim aconchego num irreversível apaixonar

Eu sei lá...



Diogo

Wednesday, November 25, 2009

plantando sonhos

Eu e Thomar damos as mãos

e selamos um amor profundo

Não há como respirar a neblina do rio

misturada com o fumo que sobe,

das castanhas que assam lentamente.

Os casacos, os rostos

(apertados por entre um cachecol e um gorro),

e por vezes um olhar cruzado, furtivo...

As luzes de Natal, ordinárias,

que apenas tornam o cinzento mais difuso.

E o frio! Sempre o frio!

non nobius domine

Sorrio.


Uma caricata existência a dois.

Um pequeno príncipe e o seu planeta.

Onde não existem nem pessoas,

nem cores ou aromas,

onde tudo é uma perfeita amálgama de tudo,

um presépio à minha imagem

onde brinco sozinho.


E eis que surge Sílvia...

É ternura no olhar.

Fico com a sensação de me puder

esconder atrás daqueles olhos

e embrulhar-me na languidez da preguiça

e do conforto de tamanha ternura.

Sílvia é um estremecer da alma!,

pintado em tons de rosa.

Sílvia, Sílvia-Thomar

a concretização mulher

de um amor escrito

em pedras e pensamentos.

Agora o coração de Thomar já bate.

Agora fecho os olhos

e tento imaginar a cidade

e só consigo sentir-me perscrutando o escuro,

rua após rua,

enquanto procuro

incessantemente!

os seus lábios...


Por favor!, peço a mim próprio,

pára com este devaneio!

Mas o que é a precipitação mais

que a ausência do medo de ser feliz?

Não conheço outra forma de viver.

Apenas ir fazendo o que o coração me diz!


E eis que surge Sílvia...



Diogo

Monday, November 16, 2009

qed

Não tenho por hábito publicar histórias do meu quotidiano. Mas vou abrir um precedente. Não por querer mudar o rumo deste espaço. A Tríade é, e sempre será, um espaço dedicado à poesia livre. Mas porque foi realmente um momento assaz curioso.

Creio que dos erros que cometi, a grande maioria os terei cometido por cobardia. Foi assim que me deixei levar pelas verdades inconturnáveis das ciências. Sou hoje um engenheiro, com pouca fé na engenharia. Faço pela vida, como as coitadas. E como elas chego a casa com vontade de tomar cinco banhos e sem me conseguir olhar ao espelho.
Estarei a exagerar, talvez... Mas não sendo nojo o que sinto, não ficará longe da repulsa.
E a verdade é que faço um esforço enorme para manter as aparências. Porém, há alturas em que a verdadeira natureza transpira e aflora, muitas vezes sem que nos demos conta. Aquela mancha de suor a alastrar pelas axilas, na qual já toda a gente reparou menos nós. Foi precisamente o que me aconteceu há uns dias.

Após uma penosa campanha a trabalhar na minha tese de mestrado (redigir texto científico é das piores torturas por que já passei!), tinha chegado finalmente a altura de defender a diabólica dissertação. Eu estava, claro, a contar ser avaliado pelo establishment científico de sempre. O mesmo establishment que eu sempre odiei e que aprendi a agradar com um sorriso happy meal. Mas o que afinal se passou nessa tarde foi algo completamente inesperado...

Fui de facto avaliado pelo establishment. Um espécime do mais cientificamente vitoriano que tenho encontrado. O que ainda contribuiu mais para a surpresa. No momento em que este senhor abriu a boca nada faria prever o que se veio a passar nos minutos seguintes.
Foi com enorme espanto que vi o meu trabalho começar por ser criticado por mais se parecer um romance policial... Percebi de imediato o que se tinha passado. Algures durante a escrita da maldita tese, tinha deixado cair a máscara; e sem que na altura me tivesse apercebido, ainda por cima, carregara forte no sarcasmo, uma vez que abomino completemente o género Dick Tracy. Mas as suspresas não ficaram por aí...

Não bastava ser catalogado de John LeCarré da ficção científica à portuguesa; tinha que vir a tragédia grega!..
Ícaro foi o que me chamaram. O que não deixa de ser curioso, pois, na verdade, sempre imaginei que se pudesse escolher uma figura paternal, gostaria de ter sido educado por Dédalo.
E remataram dizendo, "não és cientista, nem engenheiro. És um sonhador". E eu fiquei estarrecido...

Aqueles senhores estranhos, cinzentos, tinham acabado de me proporcionar um dos momentos mais felizes da minha vida, sem sequer se terem apercebido disso. Saboreei o prazer daquele comentário como se trincasse chocolate, perfidamente, no maior dos pecados capitais. Nesse instante senti a minha verdadeira natureza rugir dentro de mim, dizendo que estava mais viva que nunca!

Nesse dia esquivei-me da bala de prata que me tinham preparado e vi afirmada a minha personalidade em toda a sua completude. Mas, entretanto, tenho reflectido mais sobre o assunto e tenho pensado no pobre e frágil Dr. Henry Jekyll... A exposição é perigosa. É perigoso expor-me. E fico com medo de andar por aí com a camisa desabotoada. Que me olhem nos olhos, e percebam aquilo que realmente sou. O que constitui mais um exemplo de cobardia, e possivelmente mais um erro crasso.

quod erat demonstrandum