Wednesday, July 25, 2007

sayonara

Nos confins do desassossego da alma
um grito calado ecoa pela intermitência
da decisão de continuar ou cair.
Chegar ao fundo do beco e arrancar
as unhas a tentar trepar o muro
que serve de carrasco à esperança.

Parar o tempo...
Acender calmamente um cigarro
e contemplar o nosso fim com calma
Percorrer todos os seus pormenores,
estudá-lo como se estivesse exposto numa galeria

Dizer isto é mentira...
E nada mudar, o mesmo muro

Atchim
Está frio neste beco


César Sampaio

Saturday, July 21, 2007

Protótipo relativista do absoluto (cont.)

Parte VI

Abílio é solteiro e bom rapaz.
Trintão, magro e de uma palidez doentia.
Vive sozinho.
Não passa a roupa a ferro.
Trabalho, casa, trabalho, casa.
Apanha sempre o suburbano.
Não tem telefone.
Não lê.
Não pensa, não questiona.
Não sente.
Apenas respira porque lhe é permitido.
Abílio cansa-se porque respira.
Abílio não sabe que existe.

Abílio é uma mentira.





PARTE VII

Liberto-me da vontade de escrever
e julgo fazê-lo numa demência desajeitada
porque não suporto a pressão de ter que dizer algo
Tenho receio do que posso dizer
quando urge a vontade de dizer.
Então apenas registo os momentos
que deveria reservar ao silêncio.
Ponho então em versos os meus olhos cansados
e deixo as coisas mundanas ficarem na minha janela
como varejas a quererem entrar no fresco do meu quarto.
Um homem regra-se por entre os problemas
e a ausência deles. Quando os tenho, evito-os.
Quando não, invento-os.
Mas nunca, nunca, ser capaz de ser feliz
É a marca que nos distingue das bestas.
E não seria necessário escrever sobre isso
não fosse o seguinte aspecto particular.
Todos os dias, quando nos olhamos ao espelho,
sorrimos para nós próprios e congratulamo-nos
por sermos, outra vez nós próprios, muito felizes.
E exclamamos como está feliz o dia.
E dizemos que fulano e cicrano estão muito felizes.
Engraçado.
É a primeira vez que formulo a ideia de mentira universal.
Sempre me preocupei mais com a verdade universal,
e acabo de tropeçar na mentira do mesmo calibre.
Se o homem fosse feliz
não saberia o que fazer amanhã.

O Abílio é feliz
O Abílio é uma mentira.





PARTE VIII

Neste momento em que passam os vossos
lindos olhos sobre estes versos, eu já nao sou mais.
Deixei de ser.

A morte apregoa-se sem escrúpulos.
A morte atribui-se por rótulo, por relatório, por certidão.
E o meu coração já não bate (não estou vivo)
mas ainda vos escrevo (não estou morto)

Não quero soar a jet-set,
nem a tanto me permite a modéstia,
mas gostava ainda saber o que sou.
O que sou depois de deixar de ser.
Que lugar haverá para mim na vida?,
sem ser o de ligado ou desligado.
Vermelho ou azul,
Água ou azeite,
Oriente ou ocidente,
homem ou mulher.
Serei deus no meio disto tudo?

O Abílio é deus.
O Abílio é uma mentira.





PARTE IX

A cantiga dos conformados... ix
é música para os meus ouvidos... ix
Porque eu sinto!!... ix
E só conheço limites nos meus sonhos!!... ix
E eu sou grande e imenso... ix
e quando me ergo em bicos de pés... ix
bato com a cabeça no céu... ix
E não sei porquê nem para quê... ix
mas sei que sou gigante... ix
e é apenas por ser gigante que sorrio... ix

E quando vou na rua as pesoas comentam... ix
"Aquele é grande"... ix
e olham para mim com grande admiração... ix
mas não sabem que por ser grande... ix
não sou melhor... ix

Depois foge-me o sono... ix
e já não sou maior que ninguém... ix
mas não fico preso no vazio... ix
porque quando a noite cai eu sonho... ix

O Abílio não sonha.
O Abílio é uma mentira.





PARTE X

Sou pastor de pessoas,
guia de multidões.
Entrego a minha graça ao divino
e a minha obra às massas.
Procuro incansavelmente a felicidade,
e escondo-me na tristeza dos outros.
Não apodreço, e mal respiro.
Entoo, mas não canto.
Sou virgem, mas conheço o mundo.
Não tenho identidade,
E sou contribuinte
Com realidade, não com sonhos
Governo, mando e ordeno
e não temo nada mais que o meu erro.
Comando
e não me comando
Sou feliz

O meu nome é Abílio.



Diogo&kurt&ZéLuis