Tuesday, September 27, 2005

Resíduo

Cair num chão pisado
amortece a dor de
ter que descobrir
o porquê da insignificância.

Estender os braços onde outros
foram heróis de longas horas
é como percorrer um livro
de história de olhos fechados.

Quando errar é um desejo íntimo
e aprender é uma renúncia de um
estímulo de prazer soberano e absoluto,
chorar é dar razão a uma existência
de concepção puramente niilista
e dizer que o homem não pode ser
perfeito.

Tatuar no corpo as garras de alguém
não é menos impressionante que sonhar
com faias e tílias e rebanhos e flautistas.
Entregar-me não é destruir-me.
Olhar-te é ver-me maior!

Guardar o teu resíduo não me envenena.
Recorda-me.


José Luis da Fonseca

Imperdoável

E no fim tudo é perder!

No aproximar desenfreado do destino final.
O olhar que percorre o cadafalso.
O vislumbre do nó que me arrancará
a traqueia em pedaços de mágoa.

A culpa pesa sobre ombros caídos.
A consciência de morte inunda.

Quando os olhos fecham, a inocência
não é esquecida e a mentira é
imperdoável!

Porém factos não passam de miragens.

Ela prende, agita e desinteressa-se.
Ele não quer.
Ela propõe.

Estou aqui numa negação de passado.
Sento-me numa poltrona de nunca mais.
Abano ligeiramente a cabeça.
Procuro algum sossego.

O tempo não tem sentido determinado,
e olhá-lo é como ver-me nascer no dia da minha morte.


kurt

Saturday, September 24, 2005

Salvia

Um riso estridente que repassa
na camisa enrugada de quem passa
e não escuta que um homem está mal,
quebra a regra mestra do mundo
que se sustenta num só pé.

Eles estão na minha cabeça a dançar.
Fazem a festa cá dentro, diz ele.
Mas o que ele não sabe, é que, lá fora,
o mundo, invertido na sinfonia do
desassosego de quem observa,
dissolve-se numa luz de noite
que engole os mais cépticos forasteiros
destas horas.

Não é orgulho nem mágoa.
É despropósito e desinteresse.
É assim que os meus olhos captam
um real de nada tão puro quanto
os sonhos que me escapam há vários dias.

Trava esse coche, que quando aceleras
a meninge da minha sanidade afasta-se
perigosamente do centro de razão do meu ser.

Deixa-me sair e respirar.

Se o amanhã existir, então te direi porque
razão não existíamos antes de hoje.


kurt

Tuesday, September 20, 2005

Sonolência

Oiço uivos de tortura que vêm
de um eu longínquo que tem
vergonha de mostrar a sua nudez.

Como a lua, ele é pálido e carece
de forma que o aconchegue, e absorva
os murmúrios de dor longa e sufocante.

Porque este eu chora, e não cala
no desprezo do quotidiano,
vive triste num fundo só dele.

Estender-lhe a mão é cair num
vazio turvo de impotência e desespero.

Abrir os olhos é estagnar o coração!
Fraco motivo abjecto de existência!

Cheiro de real numa pele que é minha.


Diogo

Monday, September 12, 2005

Casual

Mil lanternas de pasmo!
E trinta gramas de puro
escárnio do que vive e
não consegue respirar.

Os árbitros do tempo
consomem cartões de
coisas, debaixo da língua,
como doentes que sofrem do
coração.

É mau dizer que se ama
de quem nos vende enciclopédias à porta...

Mas quando corre uma água
sobre um rosto, como uma luz
que toca um cruzar de olhares
e uma mão cheia de areia...
Aí o sentimento desperta a emoção
e o humano derrete-se em convulsões.

Porque o estético não é belo.
Apenas porque é o mais forte aos olhos dos
fracos.

Nos dias que correm...
Onde sociopatas consporcam
este equilíbrio dos esquecidos,
picam mais as vespas do tédio
que os vampiros da sobriedade.

Uma vida exposta num dicionário,
não se devia ganhar nem no totobola.
E ainda que isso fosse casual,
constituirias sempre uma falta...


kurt

Wednesday, September 07, 2005

Octavarium

O tempo passou, e a Tríade foi resistindo à força do esquecimento. Foi um ano de sorrisos mal esboçados. Um ano de angústias. Um ano de conquistas. Um ano de derrotas. Um ano de paixões. Um ano de convicções goradas. Um ano de renovação. Foi um ano de vida.
E, acima de tudo, foi também um ano de poesia livre e espontânea. Porque ainda é o sonho que nos mantém cravados na realidade.
A todos os nossos amigos e àqueles que visitam a nossa casa, caso existam porque, como nunca recebemos qualquer tipo de feedback, não podemos dizer que tais pessoas existam, um sincero obrigado pelo apoio, e, especialmente, por fazerem de a Tríade, mais que um caderno de poesia, uma realidade partilhada.
De nós fica a vontade de estarmos para o ano que vem, nesta mesma altura, a fechar mais um ciclo.

a Tríade despede-se

Sunday, September 04, 2005

Osmose

Uma afronta despedaça
a minha visão límpida do mundo.
Estranho...
Contudo ainda consigo engolir
éne comunicações interpessoais.
Fecho os olhos e digo que sim.
Dou uma palmadinha nas costas.
Falo do futebol que não vi.
Bebo um copo em honra
de uma alma que nunca conheci.

E por dentro, tremo de medo!
Que à menor agitação eu impluda
e liberte para o exterior anos de
contenção de podridão e horror.
Corro para casa, na vergonha
de revelar tamanha fraqueza.

Mas não deixa de ser curioso...
Um indivíduo tenta cobrir o
coração com um manto osmótico
e acaba por se deixar arranhar
pelas unhas encardidas de um
qualquer salteador de emoções.
É ridículo!...

Por isso eu digo que as pessoas não prestam!
Nem eu presto.


kurt

Thursday, September 01, 2005

Piano

Ao chamamento de uma sereia
estendo a mão sem pressa.
Acedo ao beijo frio e esquecido
que te reduz à espuma
que marginaliza os meus lábios
e salga a minha alma.
O teu suspiro é, para mim,
fúnebre, frio e vazio.
O teu sorriso é, agora,
gelo no meu coração.
Porque onde a lagoa é de fogo
e os magmas nos acariciam o rosto,
sonhar não é permitido
e o mar é um desperdício de sentimentos.

Se eu pudesse,
resgatava-te do meu sonho.
Mas as teclas do meu piano
calaram na mudez do teu sono.


Diogo

au revoir

Ser por se ser não é mais
que parecer que se é.
Viver na ausência de vida
é apenas esquecer que se existe.

Eu queria pertencer à tua existência
sem me lembrar que me excluíste.
Tu e eu, e eu para ti!
Tu esqueceste, e eu morri...


Diogo