Monday, May 24, 2010

Fuga, 15 de Maio de 2010

Uma fuga. Uma fuga que para mim não é apenas resultado de cobardia. É uma necessidade tão primal como dormir ou fornicar. Uma resposta biológica aos impulsos de pânico que me causa a mentira em que vivo. E é então que fujo, como um miúdo que corre sem olhar para trás. Comigo segue a sempre fiel Lucille, uma VT750 Shadow que em tudo se poderia chamar Poderosa. É este o prêmbulo para uma aventura de horas que sempre acaba por se materializar em vidas. Vidas imensas que acumulo e somo às já vividas anteriormente. Está uma manhã de sol, com uma ligeira brisa que corta a monotonia do céu, de um azul plácido e infinito. Contacto... Ignição. O audível e característico motor eléctrico que reanima o V2 há-de ser sempre prenúncio de clímax intenso. Acaricio a Lucille antes de arrancar, num gesto simultâneo de afecto e superstição. Alea Jacta Est


8.37: Estudo por alto o percurso que me proponho fazer, enquanto bebo um café perto de casa. Não tenho horas para voltar. Apetece-me apenas andar e não pensar em nada. Vou para norte. Sem auto-estradas, sem vias rápidas, sem grandes urbes. Saio de Tomar à procura dos caminhos e das pequenas estradas que não vêm nos mapas. À procura de solidão e de paz. Não quero apenas viajar no espaço. Quero movimentar-me num misto de espaço e de tempo. Quero viajar pelas memórias. As minhas e as de quem me rodeia. Será uma viagem identitária. Por enquanto só posso afiançar isso.


8.53: Caso tivesse um rumo traçado, estaria já perdido. Mas neste género de viagem uma pessoa nunca se perde. Quanto muito poderá conseguir encontrar-se. Procurava um acesso secundário para Ferreira do Zêzere e entretanto desviei-me não sei bem para onde. A densa mata de eucalipto e urze, exposta aos primeiros raios de sol, expele um forte bálsamo. Ainda há humidade escondida nos fetos. A paisagem é deslumbrante, mas ainda cheira a casa.


9.12: Chego às Areias. Pequena terra, conhecida pelo queijo. Já sei onde me encontro. Sigo em direcção a Alvaiázere.


9.20: É grande a planície que antecede a chegada a Alvaiázere, pejada de olival. Diante já se avista a primeira serra a ser vencida.


9.34: Começo a subir as primeiras serranias. Generosas curvas vão permitindo que os montes se abram à minha passagem. A serra deixa-se domar sem grande resistência, não deixando, no entanto, de perder encanto algum pela forma desinibida com que a paisagem se entrega a quem a deseja atravessar.


9.45: Ansião não é mais lugarejo perdido no meio dos montes. Agora também tem rotundas e churrasqueiras. Passo indiferente e sigo o meu caminho. Faço notar apenas que há casório. Pelas indumentárias arrisco dizer que é casamento de emigrantes.


10.27: Soure surge tímida mas acolhedora. Há mais encanto neste pequeno lugar do que poderia imaginar. Encho o depósito da Lucille e verifico a pressão dos pneus. Peço ajuda no trajecto ao mesmo cavalheiro que me serve o chá. Procuro uma forma de atravessar o Mondego. Quero atravessá-lo de forma discreta, na ponte mais velha que existir. Preparo o meu assalto a Montemor-o-Velho como se fosse um verdadeiro génio militar. Quero tomar a vila. Pela empatia e pela saudade claro. Há casamento em Soure.


10.56: O dia aquece. Cruzo uma estrada que trilha por entre campos agrícolas e canais de irrigação. Há árvores que ladeiam a estrada e fazem um túnel de sombra, verde e frescura. A luz que consegue passar chega-nos sobre a forma de retalhos que se sucedem a uma velocidade vertiginosa. Sinto-me verdadeiramente a viajar através de memórias.


11.14: Avisto Montemor. Vila pacata e imponente castelo. Imponentíssimo! Hesito antes de começar a subida que permitirá a sua conquista.


11.17: Valeu a pena. De cá de cima preparo o próximo galope. Para norte, sempre para norte! Há um casamento no castelo.


11.39: Sem querer entrar em quaisquer considerações de natureza cultural ou regionalista, desde que saí de Montemor que há um cheiro incessante a merda no ar. Há um cheiro pestilento e pervasivo a merda de boi. Contínuo. Persigo o rumo de Mira. O caminho é fácil mas o cheiro é insuportável.


11.58: Em Mira há algum movimento em direcção aos destinos de praia. Continuo para norte. Próximo destino é Vagos.


12.04: Estrada em péssimas condições. A ponte sobre o rio Mira está em obras. O trânsito está muito condicionado. Admira-me a ponte ainda não ter ruído.


12.20: Passo em Calvão. Lembra-me um episódio assaz curioso. Também eu vivo apaixonado por isto. Não vou almoçar leitão apesar das imensas e convidativas placas e mensagens ao longo da estrada.


12.43: A estrada volta a pregar partidas. Entre Vagos e Ílhavo mais obras e mais desvios. O dia está cada vez mais delicioso. Aveiro aproxima-se


13.03: É o regresso a uma cidade que tanto amo! Comovente este regresso a Aveiro. Vou deixar a Lucille à sombra e depois vou comer qualquer coisa.


13.35: Passeio um pouco pela cidade. Volto a pegar na Lucille e vou até à Barra. Na praia está um vento muito forte.


14.23: Volto a entrar em Aveiro para comprar ovos moles. Não sou grande apreciador, mas em casa sou a excepção.


14.47: Saio de Aveiro em direcção a Águeda.


15.05: Caminho sem incidentes e sem motivos de relato. Apenas estrada. Vou a andar bem. Vou chegar a casa ainda durante o dia de certeza.


15.31: Passo por Águeda algo incólume. Encontro a indicação da direcção do Caramulo. Parto à conquista do segundo troço de serra do dia.


15.49: Há uma beleza nesta serra de cortar a respiração ao mais afoito e menos impressionável. Como é virgem e indiferente esta terra à passagem inexorável do tempo. Algumas casas de pedra vão-se seguindo ao longo da estrada que serpenteia entre os altos montes. Casas de tempos imemoráveis onde dentro ainda vive gente de agora. Palheiros, nabais, bovinos e xistos. Cheira a primodial. Sigo devagar, porque o caminho é perigoso, mas ainda assim conquistado e maravilhado.


16.12: Passo por S. João do Monte. Volto atrás. Não acredito nos meus olhos...


16.14: S. João do Monte é um retiro celta. Daqueles lugares sagrados onde os druidas de outrora se devem ter reunido todos os solstícios de Verão. Há tanto de místico naquele lugar como de romanesco utópico em mim. Passando uma muito velha ponte de pedra, há acesso a um paredão sobranceiro à ribeira, onde duas fadas, dois espíritos da floresta, de uma beleza e jovialidade que eu só conheço na mitlogia, se banham e divertem numa tarde quente de Primavera. O momento é perfeito. A ocasião, solene. Homem e natureza. Não é epicurismo. É definição de perfeição celestial e divina.


16.42: Depois de S. João do Monte descubro uma série de rotas que permitem a visita a um conjunto de aldeias históricas. O Caramulo é um legado identitário e mitológico a preservar. Daria a vida para o proteger.


17.13: Longe vão os tempos da tísica. Agora a doença é outra: o esquecimento. A estação sanatorial mantem toda a sua imponência e austeridade. Recebe-me com a frieza natural de pedra que habita estas paragens. Há velhos a jogar ao dominó num pequeno café, num recanto ainda mais pequeno. É altura de inverter a agulha da bússola.


17.26: Desço o que falta da altitude conquistada. Campo de Besteiros é apenas isso. Sigo. Tudo plano. Estranhamente plano. Não sei para onde fica Mortágua, mas também não existe outro caminho. Sigo.


17.41: A Lucille obriga-me a outra paragem para matar a sede. Mortágua atrás, rumo a Santa Comba Dão.


17.52: Revejo Santa Comba Dão em Constância. Vagamente semelhantes, partilham o mesmo papel conciliador de quem casa dois cursos de água. Não me alongo em explorações, e permito que a minha visita se faça apenas de um par de vislumbres.


18.09: Tábua. Rasa. Digo-o sem qualquer tom de perjúria. Oca, sem qualquer finalidade. Podemos fechar os olhos e imaginar que não está ali e a nossa percepção do mundo não se altera. Nunca consegui perceber porque razão existem lugares assim. Com caminho-de-ferro seria impossível distingui-la do Entroncamento. Assim é a Tábua. Pela frente mais serra.


18.21: A serra do Açor percorre-se com tal veleidade e ternura que não pode haver maior prazer na estrada. Desdobrar cada curva com tamanha minúcia, num prazer misto de rotações e motorização com uma paisagem de mata deslumbrante pintada com um pôr-do-sol deslumbrante.


18.54: Cruzo Arganil com pressa. Ainda é dia, mas vai-se fazendo tarde. Estou já bastante perto, porém, e não conto chegar a casa de noite. Não vou poder visistar Piódão. Ficará para outra viagem.


19.25: Até Góis percorrem-se baixios de serra. As árvores frondosas e intemporais são companhia que enche a alma. Estou feliz. Trauteio John Denver.


19.52: Entro na Lousã. Pelo mapa já não tenho muitos quilómetros a percorrer. Quero chegar a casa numa hora. Saio pela estrada velha que atravessa a serra de nome congénere.


20.02: Avizinha-se percurso díficil. Serra digna desse nome. Paredões de rocha vertical, do tamanho de gigantes, e uma estrada que se vai contorcendo por entre estas escarpas. Lá em baixo, no vale profundo, a paisagem é de cortar a respiração! Antigas fortificações, piscinas naturais, cascatas, um sem número de pequenos refúgios.


20.21: Continuo a subir e a um ritmo extremamente lento. A estrada é muito perigosa. Um passo em falso e já nao saio daqui. Vai anoitecendo e a temperatura começa a baixar. Começo a ficar preocupado.


21.00: Já está quase escuro. Aproximo-me do cume, mas agora surge outra dificuldade. Cá em cima está uma neblina tal que não se vê um palmo à frente do capacete. A situação é crítica.


21.08: Passo uma marca que indica os 1200m de altitude. Está muito frio. Doem-me as mãos. Não vejo nada. Caiu a noite. A estrada está escorregadia, é estreita e para lá fa berma é o precipício sem fim. Tento não pensar em nada disso. Começo a cantar para evitar pensar na minha situação. Não sinto partes do corpo mas tento manter-me completamente concentrado na estrada.


21.16: Atinjo o cume e começo a descer. As pás dos geradores a vento fazem um barulho surdo, como se fosse um baque oco que ecoa à minha volta. Vejo as luzes lá em baixo. É Castanheira de Pêra. Anseio por lá chegar. O frio vai-me perturbando consideravelmente.


21.32: A descida serpenteia ao longo de toda a encosta sul da serra. Castanheira de Pêra vai ficando, lentamente, cada vez mais próxima.


21.55: Entro em Castanheira de Pêra. Foram quase duas horas para fazer 45km! É noite cerrada, levantou-se um vento forte e a temperatura desceu bastante. Tenho que parar para me tentar aquecer. Esfregar as mãos, mexer os braços. etc.


22.04: Sigo em direcção a Figueiró dos Vinhos. Estou bastante cansado e anseio mais que tudo por um bom banho quente.


22.32: Entro em Figueiró. Há festa algures neste lugar. Ouço ruído de bailarico e foguetes ao longe. Estou muito cansado. O frio vai-me vencendo. Vou parar para comer alguma coisa e beber um chá bem quente.


22.56: Um pouco melhor, volto ao caminho. Estou perto e isso dá-me ânimo.


23.20: Depois de vaguear pelo mato escuro como breu, entro em Arega, que cruzo sem olhar para trás. Estou mais perto.


23.41: Chego ao cruzamento de Cabaços. A EN110 recebe-me de braços abertos. Para Tomar e a todo o gás!


23.54: Entrar no Munícipio de Ferreira do Zêzere é estar de volta ao distrito de origem. Estou perto. Já sinto o cheiro.


0.00: É Domingo. Estou já quase no concelho de Tomar.


0.17: Alviobeira, lugarejo abençoado, pois não faltarão mais de 20km para chegar.


0.36: Desligo o motor. Estou sozinho na minha garagem. Estou cansado. Dói-me o corpo. Com o frio perdi a sensibilidade nas mãos, nos braços, no pescoço. Tenho cãibras nas pernas. Desespero por um banho quente. Creio que posso afirmar que estou infinitamente feliz. Despeço-me da Lucille, apago a luz e acciono o mecanismo de fecho da garagem. Missão cumprida.

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