Monday, November 16, 2009

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Não tenho por hábito publicar histórias do meu quotidiano. Mas vou abrir um precedente. Não por querer mudar o rumo deste espaço. A Tríade é, e sempre será, um espaço dedicado à poesia livre. Mas porque foi realmente um momento assaz curioso.

Creio que dos erros que cometi, a grande maioria os terei cometido por cobardia. Foi assim que me deixei levar pelas verdades inconturnáveis das ciências. Sou hoje um engenheiro, com pouca fé na engenharia. Faço pela vida, como as coitadas. E como elas chego a casa com vontade de tomar cinco banhos e sem me conseguir olhar ao espelho.
Estarei a exagerar, talvez... Mas não sendo nojo o que sinto, não ficará longe da repulsa.
E a verdade é que faço um esforço enorme para manter as aparências. Porém, há alturas em que a verdadeira natureza transpira e aflora, muitas vezes sem que nos demos conta. Aquela mancha de suor a alastrar pelas axilas, na qual já toda a gente reparou menos nós. Foi precisamente o que me aconteceu há uns dias.

Após uma penosa campanha a trabalhar na minha tese de mestrado (redigir texto científico é das piores torturas por que já passei!), tinha chegado finalmente a altura de defender a diabólica dissertação. Eu estava, claro, a contar ser avaliado pelo establishment científico de sempre. O mesmo establishment que eu sempre odiei e que aprendi a agradar com um sorriso happy meal. Mas o que afinal se passou nessa tarde foi algo completamente inesperado...

Fui de facto avaliado pelo establishment. Um espécime do mais cientificamente vitoriano que tenho encontrado. O que ainda contribuiu mais para a surpresa. No momento em que este senhor abriu a boca nada faria prever o que se veio a passar nos minutos seguintes.
Foi com enorme espanto que vi o meu trabalho começar por ser criticado por mais se parecer um romance policial... Percebi de imediato o que se tinha passado. Algures durante a escrita da maldita tese, tinha deixado cair a máscara; e sem que na altura me tivesse apercebido, ainda por cima, carregara forte no sarcasmo, uma vez que abomino completemente o género Dick Tracy. Mas as suspresas não ficaram por aí...

Não bastava ser catalogado de John LeCarré da ficção científica à portuguesa; tinha que vir a tragédia grega!..
Ícaro foi o que me chamaram. O que não deixa de ser curioso, pois, na verdade, sempre imaginei que se pudesse escolher uma figura paternal, gostaria de ter sido educado por Dédalo.
E remataram dizendo, "não és cientista, nem engenheiro. És um sonhador". E eu fiquei estarrecido...

Aqueles senhores estranhos, cinzentos, tinham acabado de me proporcionar um dos momentos mais felizes da minha vida, sem sequer se terem apercebido disso. Saboreei o prazer daquele comentário como se trincasse chocolate, perfidamente, no maior dos pecados capitais. Nesse instante senti a minha verdadeira natureza rugir dentro de mim, dizendo que estava mais viva que nunca!

Nesse dia esquivei-me da bala de prata que me tinham preparado e vi afirmada a minha personalidade em toda a sua completude. Mas, entretanto, tenho reflectido mais sobre o assunto e tenho pensado no pobre e frágil Dr. Henry Jekyll... A exposição é perigosa. É perigoso expor-me. E fico com medo de andar por aí com a camisa desabotoada. Que me olhem nos olhos, e percebam aquilo que realmente sou. O que constitui mais um exemplo de cobardia, e possivelmente mais um erro crasso.

quod erat demonstrandum

3 Comments:

At 9:19 PM, Anonymous Anonymous said...

imagino o que sentiste! Para eles, pode ter sido uma crítica "má", e se calhar, para o teu trabalho, até foi. Mas não para a tua pessoa. É muito bom reconhecerem o que somos, quando pensamos que só nós o sabemos. Falo por mim claro...

Quanto à exposição de nós mesmos, também já aprendi que não nos devemos expor assim à toa. Também ganhei o medo de me mostrar, e quando mostro que não quero mostrar (lol), as pessoas ficam um bocado baralhadas e acham estranho. Mas a verdade é que nem todo o ser humano é bom, e por isso temos de nos resguardar. Pelo menos, esta é a razão para me ter tornado tão desconfiada, reservada e talvez misteriosa, muitas vezes sem querer. Muita gente me acha estranha até. :p Mas não me importo, pelo contrário!

E agora, se me dás licença, vou pesquisar para quem é o senhor a quem fazes referência quando falas da exposição de quem somos.

beijinho*

 
At 9:48 PM, Blogger atriade said...

Hehe.
A curiosidade é uma coisa óptima. Leva-nos sempre mais longe.
"Strange Case of Dr. Jekyll & Mr. Hyde" é um clássico de Robert Louis Stevenson. Foi dos primeiros autores a abordar a multiplicidade (neste caso havia uma dualidade) de personalidades. Henry Jekyll era um respeitado médico, mas velho e doente, que desenvolve um estranho elixir. Esse elixir tinha a particularidade de permitir manifestar personalidades escondidas no subconsciente. Ao experimentar o elixir em si próprio nasce Edward Hyde, um tipo atarracado e corpulento, rude, e que se vem a revelar um assassino em série. Apesar de ter consciência do que a sua personalidade sombria cometia, Dr. Jekyll continua a tomar o elixir, motivado pelo desejo egoísta de se sentir jovem e revigorado. Sendo um conto de moral, havendo crime, tem que haver castigo... Mas até que ponto Dr. Jekyll é culpado dos actos de Mr. Hyde? É conivente com as actos deste, mas devemos imputar-lhe também a culpa da execução dos homicídios?
É esta, resumidamente, a essência da obra. Confere com o que encontraste? ;)

 
At 2:46 AM, Anonymous Anonymous said...

:o não pesquisei tão além!! Vi só que ele escreveu essa obra, mas nem vi a historia. Vi q era um género de disturbio de dupla personalidade, tipo bipolaridade, que se associava a essas personagens. Nada mais, confesso que não fui mais longe tb... :/ Mas ainda bem que esclareceste e o livro parece interessante!!

 

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