Fado do despeito
Caminha na pedra da idade
manchada de mágoa e dor.
Quem não imagina saudade,
não sabe nem sentiu pavor.
A guitarra geme de agonia,
com pena de quem dedilha
o caos de alma, que fervilha,
oscilando entre raiva e ironia
Sentir não é momento que dura.
Não é desejo nem capricho fraterno.
É ferida, que não sara ou cura.
É maldição de tormento eterno.
Podes dizer que sou corvo
ou gaivota, do frio do cais.
Que sou canto e estorvo,
sou Lisboa, e muito mais.
Mas eu te confesso que não
sou mais que pura ilusão.
Sou espuma e nevoeiro do Tejo.
Sou a lembrança do que não vejo.
Sentir não é momento que dura.
Não é desejo nem capricho fraterno.
É ferida, que não sara ou cura.
É maldição de tormento eterno.
Chego até sentir a forma banal
de melodia feita a preceito
Sinto-me neste fado, tão igual,
um transtorno de despeito!
Afinal, que mais há num rio
e numa cidade que nele respira?
Como pode um murmúrio frio
traduzir-se neste calor que delira?
Sentir não é momento que dura.
Não é desejo nem capricho fraterno.
É ferida, que não sara ou cura.
É maldição de tormento eterno.
Diogo


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