Órfão de Caeiro
Agora que foste,
não tenho mais companhia!
Estava sozinho e triste,
e chorava pela tua ausência,
quando eles entraram em casa.
De preto, todos escuros,
maus e com cheiro a naftalina.
De rosto cortante e sombrio.
Disseram que não podia estar
mais sozinho nesta casa.
Que me haviam de levar de novo.
Que não podia continuar a sonhar.
Que não podia fazer sonhar.
Disseram que me vinham buscar,
para me levar de novo para meu pai!
Despiram-me de toda a integridade.
Coroaram-me rei dos malditos.
Condenaram-me, menino,
um malfeitor dos homens.
Abro, de novo, os braços ao mundo,
e recebo em troca as pedras
da incompreensão e da ignorância.
Morre por nós, dizem eles.
Que espécie de VISA
de pecados sou eu?
Crédito ilimitado
de toda a maldade?
Cobrador assíduo de meu pai?
Lembro-me de ti,
e deixo cair uma gota.
Porque não posso
falar, passear e adormecer contigo?
Que pai este, que usa
seu filho nas suas guerras.
Renuncio ao seu nome,
e a trindade desfaz-se.
A pomba estúpida
fica ainda mais estúpida.
Esse velho fica sem poder
para absolver os vis servos.
E eu parto...
Sou criança apenas.
Procuro o teu nome
nas flores, pedras e rios.
Caminho por entre memória.
Deixo-me sonhar
e materializo-me.
Sou vontade pura,
criança eterna e imensa!
José Luis da Fonseca


0 Comments:
Post a Comment
<< Home