Alfa e Omega
Cheguei a um ponto de ruptura.
E preciso desesperadamente de me confessar.
Sou um homem de princípios.
De imensos princípios
E sem me aperceber
deixei que os sentimentos
se convertessem em burocracia.
Hoje sinto-me acordar
de um longo pesadelo,
e preciso verdadeiramente de chorar
Desconsoladamente
Porque as referências literárias,
a arte e o engenho das palavras,
as figuras de estilo,
as filosofias e as teorias,
os sentimentos complexos
explicados sobre papel milimétrico,
a vaidade irritante,
o “melhor que tu” escrito na testa,
toda essa torrente de iluminismo
universal reservada à restrita elite
dos universalmente iluminados;
Como?, e eu repito,
Como explicar tudo isso
a uma criança que chora com fome?
Ou a uma mãe que perdeu um filho?
Como explicamos isso a nós próprios
quando um amigo agonia numa morte
lenta à distância de um abraço?
Que podem dizer essas teorias sobre
a mais básica e crua manifestação
da singularidade humana: a dor.
Mas de que vale falar de evoluções
enquanto para tantos, mais que muitos,
demasiados, mesmo quase todos,
a única realidade conhecida é o sofrimento constante?
Para quê uma galeria de arte abstracta
quando graficamente o nosso mundo é monocromático?
Apenas de sangue se pintam as nossas telas,
e esse é um facto incontornável.
Que sentido fará então falar do multidimensionamento
do espírito humano?
Que sentido fará palrear ideias loucas sobre
a elevação do indivíduo a entidade central e suprema do universo
quando a poucos metros de nós há sempre alguém a suplicar
por um fim, e por vezes pior ainda, por um nunca haver princípio.
To hell with all that bullshit!..
Sei que não me estou a fazer entender,
não completamente pelo menos,
mas também não é neste momento meu intento
escrever mais uns versos bonitos.
Confesso-vos que choro desconsolademente
E sinto vergonha pelo meu egoísmo
Egoísmo esse sobre o qual nunca
tive verdadeira legitimidade.
Comecei com os meus princípios,
e com eles devo acabar.
Refugiei-me na depuração das noções
de amor e de felicidade.
E usei isso como desculpa.
Protegi-me atrás de uma barreira
invisível à qual chamei ética.
Mas a única coisa que realmente
eu procurava alcançar era o distanciamento
absoluto da condição humana.
Ao fim e ao cabo apenas quis fugir
daquilo de que verdadeiramente somos feitos:
medos, dor e sofrimento.
A minha vida foi toda ela um acto de cobardia.
E se à minha cega e fanática religião
chamei amor,
à cruz que agora se ergue à minha frente
eu chamarei redenção.
Por mais que me doa
sinto que devo isso ao mundo.
E basta que do meu sacrifício
se cale um choro de criança
para que, no meu sofrimento,
eu seja plenamente feliz.
kurt


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