Creolina
De longe do caixão negro,
sobe um cheiro imundo,
imenso, nauseabundo.
Eu sussurro ao defunto
que estou imerso em creolina
e por isso é que o posso beijar.
Ele agradece, mas pergunta-se
porque não se lembrou ele
de fazer o mesmo. Só tomava
banho de sabão porque não
passava de um chimpanzé.
Do outro lado, fica uma
pastelaria fina, onde
se desespera por uma
t-shirt e um cigarro.
Macaco é bicho estranho.
Não consigo gritar ao gajo,
porque a creolina não deixa,
e peço ao barbas que o faça.
Enquanto o olho na forma
de garrafa de aguardente,
ele berra às pedras que a
culpa da nossa desgraça
é delas e do zarolho.
Esse zarolho, puta que o pariu!
O bronze ri-se e, vou eu,
e mijo-lhe em cima.
E ele diz-me que, como
é creolina ele não se importa.
O bronze é um gajo às direitas.
Fico a gostar dele, e sento-me
ao seu lado. Ele ri. Eu não.
A procissão segue. E os tolinhos
olham e pensam que são eles
que vão na grande caixa.
Se não chegarmos depressa ao
inferno, o chefe vai ficar zangado
connosco. Por isso deitamo-nos
no chão e vamos a rastejar na via
cuspida e estrelada dos cacos de
vidro que nos rasgam o peito,
e me faz escorrer a creolina
pela praça onde eles enforcam
os outros piores que nós.
Tenho medo de me infectar.
E não o escondo. Tenho medo.
Quero-me esconder no caixote
de papelão e meter o morto de
novo na rua. Eles têm os tambores
em cima de mim e não consigo.
Então, largo a correr para o
repuxo de vinagre e mergulho.
Os pombos, raça putana de animal,
lançam-se no meu encalço,
e comem-me os olhos da cara.
O sangue escorre de duas
cavidades faciais e tinje o
liquído envolvente.
Um pobre e honesto varredor
pensa que, por maldade, lhe
fodo o fontanário e crava-me
o seu ancinho no meu coração
já de si fraco por natureza.
Fico ali.
Eles passam e não ligam.
Uns ainda pensaram, O
morto, morto está, e mais
podre não pode ficar. Não
precisamos do gajo da
creolina. Ele que se foda.
Só não chorei, porque não tinha olhos.
kurt


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