Sunday, July 31, 2005

Abstinência

Sombras de contraste puído
e abstinência de privação
não me dizem nada.

Estive na cabana de um velho pescador.
Ele limitou-se a dizer que não percebia.
Sou ignorante, disse-me.
Como lhe podia eu responder,
se fora a frase mais eloquente
que alguma vez ouvira?

Tinha um cão que pedia boleia
na berma de uma estrada inexistente
Ladrou-me, mas eu vinha a pé.
O velho afogava-se em bagaço,
da mesma forma que eu faço agora.
Não tinha que fazer nem em que pensar.
Estava apenas farto de olhar um céu
estrelado da mesma forma que sempre o vira.

Odeio a democracia e invejo o velho.
Arranquei-lhe a cabeça com uma pá,
mas continuei incompleto.

Troquei de marca de tabaco.
Deixei de beber.
Comecei a dormir ao contrário.
Arranjei outro nome.

Deixei-me inundar de vazio
fútil e desprovido de sentido.

Porém, há um reflexo de matéria
que me ostenta as divisas de um
ser que se parece mais com
uma caixa de cartão, onde guardo
as botas velhas de meu avô.

Deixo uma herança de privação
no meu poço secreto onde gastei
tantas vidas, daquelas que vêm
com os cereais que comemos de manhã.

É um irrisório traço de giz.
Uma vontade expressa de
dizer não, e que se revela
ser resumidamente patética.

Tão patético como querer
expressar o que não existe.
Juntar palavras que não
existem em conjunto.
Que não transmitem ideias.

Há uma completa abstinência
de raciocínio, de pensar, de dizer.
Resumo-me ao silêncio que o
meu vazio permite, e escondo-me
na quietude de não saber nada.


kurt

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