Tuesday, December 28, 2004

Queria deixar apenas um excerto de um poema de Bénédicte Houart, que é, para mim, a mais pura definição de mulher. Haja honestidade para admiti-lo. Estou nervoso e atónito.

José Luis da Fonseca


vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estende a mão
após decruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão escondida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores
nos bastidores da minha memória


é uma casa de passagem onde
se vê o mar quando
a puta veste o fato de marinheiro e
põe a cassete da tempestade


mulher alguma é melhor do que
mulher nenhuma dizia o meu avô que morreu
esquecido num guarda-fatos
mulher alguma dispunha as bolas de naftalina e foi assim que
tudo isto aconteceu há muito tempo mas
a alma não esqueceu
o nariz reconheceu


a puta que me pariu era a mais linda da rua formosa
eu saí a ela e deve ser por isso que mal sorrio os homens perguntam
quanto é
e eu não é nada a puta que me pariu pôs-me a estudar e eu agora
só sorrio e é tudo de graça
e a seguir mostro-lhes o rabo e a seguir as pernas e ponho-me a andar
deixo-os de corpo a abarrotar
de tralha


um homem geme porque
o corpo de uma mulher que recusa
se enrosca e
a recusa é doce e um homem geme
enquanto a mulher se ausenta
estica o corpo até às nuvens
enfia os dedos no anûs das nuvens
está frio na ponta dos seus dedos então
a mulher cose as nuvens umas às outras
monta um carrossel para se aquecer
e disse tomai os meus vestidos enfiai-os que não os quero mais
e empinou o corpo
finalmente a mulher remata o homem enrosca-se então

Bénédicte Houart

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