Thursday, December 23, 2004

Protótipo relativista do absoluto

Hoje, apresento aqui um esboço do que poderá vir a ser um ensaio sobre a existência humana, uma tentativa de explicar as perguntas clássicas. O conteúdo está ainda em bruto, envolto em muitos pormenores pessoais, mas creio que será bastante para todos aqueles salteadores do mistério de ser. Hoje, exponho aqui o meu tesouro.




PARTE I

Quando caminho nos campos
e as flores me sussurram
que as baratas não são bichos,
finjo que não as ouço
e continuo o meu caminho.
Que sabem as estúpidas das
flores sobre a existência
de qualquer coisa, inclusive das
pobres baratas que nunca viram?

Será por nunca as terem visto?
E as baratas têm culpa de
não suportarem a luz exuberante
das cores vistosas e berrantes
que resplandecem nas pétalas
voluptuosas e falsas das flores?

Eu não quero saber. As baratas
nunca me fizeram mal, e, por isso,
ignoro a maledicência das flores.
Por mim, o mundo não tinha flores.
Podia ser cinzento, para que
as baratas pudessem caminhar
livremente a meu lado.

O sol não é honesto comigo.
Nem justo, nem sincero.
Diz que me alimenta, e persegue-me
a cada passo que dou.
Não vou em direcção a ele,
e, mesmo assim, vigia-me vorazmente.
Não gosto dele, e vou deixar de lhe falar!

A mim, só me dou com a lua.
Sem luz, nem flores, nem baratas.
Apenas eu e o meu reflexo pálido.
A imagem mais fiel que tenho de mim próprio.
Com a lua posso falar, naquele silêncio
que caracteriza uma relação satisfatória.

Ninguém me disse que o ópio vinha da lua.
Mas eu acredito nesse ninguém.
Sempre acreditei no ninguém,
no nada e nas palavras começadas por n.
É por isso que amor começa por a.
A de avassalador e ardente.
E também de angustiante e apocalíptico.

Assim, fico-me pelo pensamento lunar.
Lua não começa por n, mas faria
tudo o sentido que começasse.





PARTE II

Às vezes ponho-me a pensar,
e não deveria porque pensar
é um pecado intelectual,
que sou tão vazio como uma
pipa escorrida.
Sinto mesmo a minha pele
de carvalho estalar de tamanha
secura de proveito e utilidade.
(Sentir também não é melhor,
sentir é apenas fraquejar.)
Ponho-me a escrever incongruentemente
e reparo na ausência de qualquer
traço de presença humana
na minha atitude, na minha forma,
na minha ideia, na minha existência.
Sou um estranho. Mesmo nos meus critérios.
Sou uma aberração sem préstimo, porque
não tenho poderes ocultos.
O meu único poder, é o de pasmar
com o meu quotidiano mesquinho
e exemplarmente ridículo.
Sou irrisório. A mais obrada
de todas as obreiras deste
formigueiro de trampa caiada.

Não contente com isso, continuo a escrever
e a justificar-me recursivamente.
Seria um infeliz se fosse digno desse nome.
Sou bem pior que isso.
Sou inexistente.
Vazio absoluto.
Mas como vazio tem apenas
uma representação teórica,
deixo-me ser, ainda, um pequeno
número redondo, num caderno
academicamente decorado.
Sou nada.

Nada começa por n,
e deixo-me contentar com esse pouco.






PARTE III

Na montanha mais alta
e no mais fundo dos abismos,
ecoa uma única palavra.
EU.
O egocentrismo é a atitude
mais peremptória que já conheci.
É a abstinência e a humilhação
de tudo o que existe no mundo.
Nela se resume o significado
da existência de todo o universo.
O indivíduo é a chave para todos os mistérios seculares da vóvó Maria.
O indivi dual, concentra em si
a essência de tudo o resto.
O padrão singleton é a única verdadeira ciência do mundo.

Porque nada existe à excepção de ti próprio.
O indivíduo é dual, porque
se desmultiplica em dois.
E esse é o supremo do verdadeiro
conjunto dos números naturais.
Porque, na realidade, só existem
três quantidades possíveis.
Nada, um ou dois.
Um indivíduo tem existência suprema,
no universo parcial que lhe coube.
No seu referencial, o seu universo
é único e indissociável.
Nesse espaço-tempo, tem impulsos
de capricho teimoso contra o
tédio que a sua solidão lhe impõe.
Isso leva-o a criar uma representação
sua, que coloca num tabuleiro de xadrez
virtual, em jeito de reality show,
e deixa-se assistir ao desenrolar das suas
peripécias, sem deixar que a sua representação
tome consciência da situação real.
Arrasta-se por todo um conjunto de emoções,
provoca a sua morte e volta a nascer-se como quer.
Reescreve todos os parágrafos.
Brinca aos deuses, e experimenta a vida humana
com que sempre sonhou, mas que nunca poderá vir a ter.
O indivíduo é um emulador de sonhos,
e uma constante tão constante como
a nossa gravidade que nos prende ao tabuleiro.
Cá em baixo, existimos apenos nós.
Somos apenas eu.
Tudo o resto é realidade projectada
pelo nesso eu maior, para que ele
possa ter uma vida decente.
Para onde quer que olhes,
só te vais poder ver, realmente,
a ti próprio, porque, para ti,
és a única coisa que realmente existe.







PARTE IV

Se eu fosse uma pessoa,
gostava de ser um boi.
Podia correr pelos campos,
e dar marradas nas árvores.
Ir beber ao riacho,
e comer toda a erva que me apetecesse.
Se eu fosse um boi,
queria ser um boi feliz.
Não ter que me preocupar
com o resto da manada.
Gostava de ser um boi solteiro.
Assim, ninguém me podia mandar
à cara o facto de ser boi.
Se eu fosse um boi,
podia montar as vacas por trás,
mesmo à valente!
E depois, podia mandá-las
à bosta, ou à vaca da mãe delas.
Se fosse boi, gostava de ser pardo.
Preto não, arre!
Touradas de morte não é comigo.
Só de vida.

Se fosse boi, seria louco,
e poderia infectar todas
as manadas do planeta
com a minha enfermidade.
Quem me dera ser boi...







PARTE V

Só quem não provou o sangue
frio e coagulado de um cadáver,
é que me poderá apontar o dedo
por conduta socialmente inaceitável.
Quantos são, afinal?
Como sempre, ninguém se acusa...
Mandem lá a puta da pedra.
Não me importa o que digam ou pensem.
Nem eu me importo a mim.
Continuo a saciar o meu
fraco instinto vampírico.
Que mal tem se te apanham com os lábios
ainda engordurados do cetim
maravilhoso que é o sangue dos outros?
Não escondas a cara, que não vale a pena.
Vira-lhes as costas, e continua a
sugar a vida que agora te pertence.
É magnífico deixares-te levar pelo
instinto animal com que deus te dotou
para que pudesses sempre servi-lo à sua imagem.
Para quê lutares para seres homem?
Acaso quererás apodrecer no inferno?
Então és louco, e incrivelmente estúpido.
Se deus está do teu lado,
abraça-o e mata o teu irmão de sorriso nos lábios.


Diogo&kurt&ZéLuis

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